sábado, 13 de janeiro de 2018

No próximo domingo (14/01/18), o programa TV Mulheres debate a situação das mulheres nos presídios do Brasil


Vai ao ar no próximo domingo mais uma edição do programa TV Mulheres, com a apresentação da companheira Perci Marrara, às 19h00 pelo Canal da Causa Operária TV no Youtube.

E o tema do programa será a evolução do encarceramento no Brasil como parte da política repressiva do Estado contra a população. Essa será a primeira de uma série de programas dedicados ao tema "Mulheres e Prisão", estando já previsto um debate sobre a maternidade nas prisões brasileiras.


O Brasil abriga uma das maiores populações carcerárias do mundo. De 2000 a 2016, o país teve um aumento de 700% de mulheres que foram condenadas e foram para a prisão. 60% dessas mulheres foram presas por causa de crimes relacionados ao tráfico de drogas, muitas delas assumindo a função dos companheiros que foram presos, ou que entraram no tráfico por meio de ameaça, coação e agressão por parte de seus companheiros.

E a situação das mulheres que estão presas, estão em condições de abandono por parte da família, 80% delas são mães, que deixam os filhos com os cuidados de parentes mais próximos. Lembrando que 43% das mulheres que estão presas no país atualmente ainda não tiveram seus casos julgados em definitivo.

Também serão debatidos no programa possíveis fatores que impactam a política prisional para as mulheres, suas opções e ausências, com a convidada Alessandra Teixeira, professora e pesquisadora da Universidade Federal do ABC (UFABC) na área de políticas públicas, autora do livro “O Crime pelo Avesso”.

O programa TV Mulheres é fruto das discussões do Coletivo de Mulheres Rosa Luxemburgo, que reúne interessadas (filiadas ao PCO ou a outros partidos, e também não filiadas a qualquer partido) no debate sobre o feminismo sob o ponto de vista marxista, e sobre questões que afetam e influenciam a vida das mulheres no Brasil. Desde novembro de 2017, todos os domingos às 19h, são debatidos temas pertinentes ao momento político e à situação das mulheres no país.

Para assistir ao programa, basta comparecer pessoalmente ao Centro Cultural Benjamin Péret (Rua Serranos, 90, Saúde, São Paulo/SP) ou acompanhar on line na Causa Operária TV pelo youtube (https://www.youtube.com/channel/UCEaXaeR0DL62WwRlR2EMxEQ) ou pelo facebook (https://www.facebook.com/causaoperariatv/).

Este programa é particularmente especial para mim, pois além de tratar de um tema intimamente associado à defesa de direitos das mulheres no Brasil traz como entrevistada a advogada com quem trabalhei no Hospital Central do antigo complexo penitenciário do Carandiru, defendendo o indulto humanitário para presas e presos portadores de AIDS, que muito admiro por sua força, militância na questão carcerária, e dignidade no trabalho com o Direito. 

Pra quem quiser conhecer um pouco melhor o trabalho da Alessandra Teixeira, deixo aqui o link de um artigo escrito por ela e por Hilem Oliveira, reunindo e analisando as pesquisas acadêmicas sobre a maternidade nas prisões brasileiras e elencando as questões mais importantes sobre a luta daquelas que são mães e mulheres no cárcere suscitadas nas pesquisas, chamado “Maternidade e encarceramento feminino: o estado da arte das pesquisas no Brasil: http://www.anpocs.com/index.php/edicao-atual/10571-maternidade-e-encarceramento-feminino-o-estado-da-arte-das-pesquisas-no-brasil/file

Então, convido a todos a participar conosco do próximo TV Mulheres, que promete um debate excelente!

Fonte de parte do texto: Diário Online da Causa Operária

 

Assista também os programas TV Mulheres anteriores:


PEC 181, golpistas planejam acabar com o direito ao aborto no Brasil: https://www.youtube.com/watch?v=jDcFfe6v5lk&index=1&list=PL6exWLai3Il0wA9fHrqu252JrjO1zvl5E 
 
A luta das mulheres por moradia com a Cia de Teatro da Investigação - CTI: https://www.youtube.com/watch?v=jorV22rvxHA&index=2&list=PL6exWLai3Il0wA9fHrqu252JrjO1zvl5E

Violência contra mulheres: mais um instrumento de opressão: https://www.youtube.com/watch?v=j3EbkfRJv54&index=3&list=PL6exWLai3Il0wA9fHrqu252JrjO1zvl5E

Mulher e trabalho: Arquitetura: https://www.youtube.com/watch?v=I2n7C2RqrJ8&index=5&list=PL6exWLai3Il0wA9fHrqu252JrjO1zvl5E 

Retrospectiva 2017 (neste programa a apresentadora Perci Marrara faz uma excelente análise sobre o "feminismo carcerário", entre outros assuntos): https://www.youtube.com/watch?v=BormsCNStmA&index=6&list=PL6exWLai3Il0wA9fHrqu252JrjO1zvl5E

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Aumento das tarifas de transporte público prejudica acesso dos cidadãos à saúde em São Paulo

O Movimento Passe Livre convocou uma manifestação contra o aumento das tarifas de transporte público em São Paulo anunciado pelos governos Doria e Alckmin (as passagens de ônibus e metrô subiram de R$ 3,80 para R$ 4,00), que ocorrerá hoje, dia 11 de janeiro de 2018, às 17h, no Teatro Municipal de São Paulo (Praça Ramos de Azevedo). 

Mas o que isso tem a ver com saúde, e por que nós militantes da saúde devemos comparecer e apoiar este protesto de hoje?

Há alguns meses conversei com a mãe de um menino com diabetes sobre a assistência farmacêutica excepcional do SUS, referente aos pedidos administrativos de medicamentos/terapias/serviços não integrantes do protocolos padronizados. Ela me contou que durante algum tempo recebeu as insulinas análogas da Secretaria do Estado da Saúde de São Paulo, mas desistiu ao perceber que os custos com gasolina e estacionamento no dia de retirada eram superiores aos gastos com a aquisição por sua própria conta. Neste caso, a mãe possuia condições de custear o tratamento do filho. Mas e quem não tem? 

Quem não tem condições de custear seu tratamento depende da assistência do SUS. Em São Paulo, os pedidos administrativos à Secretaria do Estado da Saúde são recebidos apenas no AME Maria Zelia, no Belenzinho. A unidade é de fácil acesso, há vários ônibus no terminal de metrô que passam pelo posto. Fui duas vezes até lá usando transporte público - metrô e ônibus na ida, e ônibus e metrô na volta. Com as tarifas atuais, o gasto com transporte para o  protocolo do pedido de assistência farmacêutica excepcional no AME Maria Zélia seria de R$ 10,00, se o atendimento ocorresse em menos de duas horas (acarretando o pagamento de apenas uma pasagem de ônibus) ou R$ 12,00, se o tempo de espera para atendimento superasse duas horas. Isso para quem vive na região central de São Paulo como eu.

Nas duas vezes em que estive no AME Maria Zélia, conversei com pessoas no ônibus que também se dirigiam àquela unidade de saúde, algumas pela terceira vez. Assim como eu, para conseguir efetivar o pedido administrativo de terapia excepcional, eram obrigados a retornar duas ou três vezes ao local em função de novas exigências de documentos em cada comparecimento, sem fundamento em norma técnica. No meu caso, os gastos com tranporte para efetivo protocolo do pedido de insumos e medicamentos seriam R$ 20,00 ou R$24,00 (2 vezes). Se outra evasiva da SES-SP fosse apresentada e eu precisasse retornar uma terceira vez, seriam R$ 30,00 ou R$ 36,00. E assim por diante. E isso apenas para protocolar um pedido!

Desta forma, temos que apoiar o Movimento Passe Livre e comparecer à manifestação de hoje, como forma de também garantir o direito à saúde dos paulistanos. Precisamos ir às ruas contra o aumento de tarifas do transporte público e levantar a palavra de ordem de Fora Doria, Fora Alckmin e abaixo o golpe!




Confirme presença no evento do facebook: https://www.facebook.com/events/222505838292601

Texto do Movimento Passe Livre de convocação para o ato:

4.00 REAIS! CONTRA O AUMENTO: DESOBEDIÊNCIA!!!

Querem nos fazer pagar ainda mais caro pelo que nem deveríamos pagar e NÃO É POSSÍVEL ACEITAR PACIFICAMENTE A EXISTÊNCIA DE UM OUTRO AUMENTO!

Por uma vida sem catracas!!!

Se ontem o prefeito empresário e seu padrinho governador anunciaram mais um aumento no transporte, hoje já avisamos que vamos travar resistência a tarifa! Dória e Alckimin esperavam um início de ano tranquilo? Vai ter luta na cidade!

Na mais pura amizade,João Dória e Geraldo Alckmin novamente deram as mãozinhas e anunciaram MAIS um aumento! Dessa vez, de vinte centavos na nossa já absurda passagem para o começo do próximo ano e ainda junto com o corte de muitas linhas que usamos todos os dias. Movimentar-se pela cidade, algo pelo qual não deveríamos ter que pagar, agora vai custar R$ 4,00 – QUATRO REAIS - e pra quem pega metrô e ônibus, vai para R$ 6,00. Nas linhas do EMTU, mais ainda!!!

No começo desse ano, Dória MENTIU (Dória sempre mente) ao dizer que congelou o preço da tarifa. Nao só, junto de Alckmin, aumentou o valor da integração em quase 1 real e reduziu as cotas do passe estudantil dos estudantes, como também aumentou os bilhetes temporais e mudou a ordem de cobrança para beneficiar ainda mais o bolso dos seus amigos empresários. A licitação do serviço municipal de transporte nem ao menos teve abertura pra ser discutida com a população! Mas temos a nossa proposta: Não queremos um transporte excludente, queremos tarifa zero pra geral!

AUMENTO NÃO!

Enquanto o governador e o prefeito se importam somente com o lucro dos seus amigos empresários, a cada vez que a tarifa sobe, aumenta o número de pessoas excluídas do transporte coletivo. Entre nós e a cidade (que nós mesmos fazemos funcionar!) existe uma catraca que cobra cada vez mais caro. É que para os de cima, ninguém tem que sair da periferia se não for para trabalhar ou - se tiver dinheiro - para consumir.

Por isso, no dia 11 de janeiro, agente vai dar feliz ano novo e falar pra esse prefeito e pra seu amigo governador que a gente NÃO VAI ACEITAR MAIS UM AUMENTO E NÃO VAI PAGAR QUATRO REAIS PELO TRANSPORTE!

TARIFA ZERO JÁ!
 

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Participe das Pré-Conferências Municipais de Saúde de São Paulo - Vila Mariana/Jabaquara e Ipiranga, e Centro


Desde o dia 02 de dezembro estão acontecendo na cidade de São Paulo as pré-conferências municipais de saúde, com o tema "A Defesa do SUS e Seus Princípios: Universalidade, Integralidade, Equidade, Descentralização e Participação Social". 

Os encontros, preparatórios para a 19ª Conferência Municipal de Saúde de São Paulo, que ocorre em março de 2018, foram mal divulgados (o Conselho Gestor da minha UBS recebeu a informação apenas esta semana) e marcados numa época com baixa probabilidade de participação da sociedade em função do encerramento do ano, revelando a intenção da gestão da saúde de São Paulo de esvaziar o evento. Daí a importância da nossa participação nas duas pré-conferências que ocorrem no próximo sábado, dia 16/12/17.

Neste momento de mudanças na legislação, que afetam profundamente também as políticas na área da saúde, podendo acarretar uma nova conformação do sistema (alguns especialistas temem até mesmo o risco de fim do SUS enquanto sistema universal, integral, equânime e gratuito de acesso à saúde), é preciso garantir as conquistas pela saúde pública no Brasil e o seu caráter participativo, universal e democrático.

As etapas regionais são importantes, pois é a representatividade local que garante a legitimidade do evento como instância colegiada dos vários segmentos representados. São as conferências de saúde que proporcionaram transformações históricas na gestão da saúde no Brasil. 

As pré-conferências têm por objetivos:

• Mobilizar e estabelecer diálogos com a sociedade em defesa do direito à saúde e do SUS, na elaboração de propostas a serem discutidas na conferência municipal;
• Fortalecer a participação popular e o controle social no SUS, com ampla representação da sociedade;
• Propor diretrizes para a política municipal de saúde e o fortalecimento dos programas e ações de saúde em São Paulo;
• Avaliar a situação do atendimento em saúde na cidade, elaborar propostas a partir das necessidades de saúde e participar da construção das diretrizes do Plano Plurianual (PPA) e do Plano Municipal de Saúde, no contexto do SUS;
• Aprofundar o debate sobre as reformas necessárias à democratização do Estado, em especial as que incidem sobre o setor saúde;
• E eleger/indicar delegada(o)s para participarem da 19ª Conferência Municipal de Saúde de São Paulo.

E quem pode participar das pré-conferências? A comunidade em geral, representantes dos (as) usuários (as), dos (as) trabalhadores (as) de saúde, dos (as) gestores (as) e de prestadores(as) de serviços de saúde. Os (as) candidatos (as) a delegados (as) à 19ª CONFERÊNCIA MUNICIPAL DE SAÚDE DE SÃO PAULO, deverão ter se credenciado até às 11h da manhã no dia da Pré-Conferência, assim como participar efetivamente das discussões, condição determinante para dar legitimidade ao seu pleito (artigo 10 do REGIMENTO/REGULAMENTO DAS PRÉ-CONFERÊNCIAS DA 19ª CONFERÊNCIA MUNICIPAL DE SAÚDE DE SÃO PAULO).
 
Quando e onde? No próximo sábado, 16/12/17, nos seguintes locais:

Vila Mariana/Jabaquara e Ipiranga
8h às 17h
Universidade São Judas Tadeu
Rua Taquari, 546 - Mooca
 
Centro
8h às 17h
Uninove Campus Vergueiro
Rua Vergueiro, 235/249 - Liberdade

Fontes:


Orientações Gerais para as Pré-Conferências
1. De acordo com a Deliberação do Conselho Municipal de Saúde de São Paulo (CMSSP) em sua 228a Reunião Ordinária, realizada em 19 de outubro de 2017 e conforme Portaria SMS-G no 909/2017, publicada no Diário Oficial da Cidade, em 11/11/2017, a 19a Conferência Municipal de Saúde deverá ocorrer em março de 2018 e será precedida por Pré-Conferências a serem realizadas entre 11/11 e 16/12 de 2017.
2. Recomenda-se atenção especial de todas as Comissões Organizadoras das Pré-Conferências para a iminente aprovação, pela Câmara Municipal, dos Projetos de Lei que tratam do PlanoPlurianual 2018-2021 e da Lei Orçamentária para 2018, e para a importância da mobilização dos participantes das Pré-Conferências e da sociedade em geral, para que a Câmara incorpore algumas propostas prioritárias aprovadas nas Pré-Conferências, por meio de emendas do Legislativo Municipal.
3. O documento norteador apresenta resumidamente uma análise de questões a serem consideradas pelos participantes das Pré-Conferências, e apresenta um conjunto de “perguntas orientadoras” para os debates em Grupos. Algumas perguntas visam a provocar reflexões mais gerais sobre a conjuntura atual da saúde no país e em especial na megacidade paulistana e dos desafios colocados para a defesa do Sistema Único de Saúde - SUS público, universal e de qualidade, que atenda às necessidades da população. Recomenda-se que os coordenadores dos diferentes grupos, a serem escolhidos pelo próprio grupo, e também os relatores, lembrem a todo instante e busquem estimular que os grupos debatam as “perguntas” procurando sempre produzirem propostas a serem depois aprovadas em plenária.
4. Para tanto, recomenda-se que todas as Comissões Organizadoras levantem e disponibilizem para os grupos algumas informações básicas como subsídios: a) as propostas contidas no PlanoMunicipal de Saúde 2014-2017 que interessam à sua região; b) o que consta no Relatório Anual deGestão – RAG de 2016, o que foi realizado, parcialmente realizado ou não realizado; c) as propostas contidas no Plano de Metas 2017-2020 que interessam à região; e d) as propostas contidas no Projeto de Plano Plurianual, ora em tramitação na Câmara Municipal.
5. Estas informações permitem o cotejamento com os problemas e necessidades fundamentais de cada região, e devem orientar a produção de propostas efetivas que deverão posteriormente ser consolidadas para debate e aprovação pela Conferência Municipal, constituindo-se assim as diretrizes gerais para a finalização do Plano Municipal de Saúde 2018-2021, atualmente em fase de finalização pela Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo (SMS-SP).
6. Assim, antes mesmo da Conferência Municipal, a ser realizada até a primeira quinzena de março de 2018, o Conselho Municipal disporá dos subsídios produzidos em cada região para debater a proposta de Plano Municipal que deverá ser apresentada pela SMS-SP. 

A DEFESA DO SUS E DE SEUS PRINCÍPIOS
O município de São Paulo (MSP) acumula contradições na área da saúde não apenas ao longo de seu processo histórico, marcado por projetos sucessivamente construídos, e demolidos sempre às trocas de Gestão; como também, relevantemente, impostas pela soma de três vetores aplicados contra o fortalecimento de nosso Sistema de Saúde Público e Universal:
1) O desmonte da Seguridade Social e das diretrizes que alimentaram a Reforma Sanitária como parte do Projeto Civilizatório brasileiro, posto como agenda pelo Governo Federal desde 2016;
2) A fragilidade, quando não omissão, do Governo Estadual em produzir uma política e uma gestão sanitárias para aprimoramento do Sistema; e
3) A ausência de consequência política para condução das transformações necessárias por parte do Governo Municipal.
4) A instável e reduzida participação federal e, principalmente estadual, no processo de financiamento municipal do SUS.
Assim, uma Conferência Municipal de Saúde de 2018 deverá assumir a responsabilidade histórica de, em reconhecendo que ‘há valores que não se podem perder’, como afirmou Sérgio Arouca, sobretudo diante de um cenário tão desfavorável, avançar com propostas que produzam uma nova linguagem para comunicar os fenômenos sanitários que ocorrem no território e uma agenda positiva para produção do Sistema de Saúde que se quer.
EIXO I – UNIVERSALIDADE DO SISTEMA
O Princípio Constitucional da Universalidade do Sistema foi escolha política resultante do acúmulo de lutas do movimento sanitário desde os anos 60. O conceito de ‘universalidade’ foi inspirado no modelo de Bem-Estar Social dos Estados Nacionais europeus, a Universalidade traduz-se em dois elementos caros ao nosso Sistema de Saúde:
1) A possibilidade de acesso a todas as brasileiras e a todos os brasileiros, independentemente de sua etnia, orientação sexual, identidade de gênero e classe social, ao cuidado;
2) A democratização de recursos e, por isto mesmo, de processos, como forma de se produzir e manter este Sistema.
Esta escolha política, no entanto, não fora acompanhada, ao longo da década de 90 (os anos de consolidação da regulamentação da Lei Orgânica do Sistema Único de Saúde (SUS) e, por isso, de consolidação do próprio Sistema) de projeto para financiamento do SUS que o sustentasse, de fato, o princípio da ‘universalidade’. Os fatores que contribuem para corromper a ‘Universalidade’ são:
1) A possibilidade de competição entre o provimento privado e o público;
2) A crescente isenção de impostos dos privados e anistia de dívidas do setor suplementar e 

3) A entrega persistente dos cargos de gestão às indicações de confiança e não aos quadros técnicos.
Outro elemento complicador para a defesa da Universalidade foi a assinatura, em 2014, pelo Estado Brasileiro, da Estratégia para Cobertura Universal em Saúde (CUS) (Universal Health Coverage) proposta pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A avaliação de que esta poderia representar um salto organizativo para o Sistema, revelou-se, contudo, em ameaça ao fortalecimento do SUS e promotora da segmentação de acesso ao cuidado em Saúde, episódio a que assistimos na atualidade. Estas contradições necessitam ser profundamente abordadas durante a Conferência Municipal de Saúde, com a serenidade que merecem.
A estratégia de Gestão para o alcance da Cobertura Universal em Saúde é permitir aos Estados que ofertem acesso ao cuidado, frequentemente interpretado apenas como assistência, seja em serviços públicos ou privados, sem qualquer crítica às formas de regulação para este provimento. Para países centrais ao capital, como Holanda, Canadá e Inglaterra (em ordem decrescente de emprego de provimento privado) a oferta de acesso, por meio de CUS, possui significado concreto plenamente diverso daquele aos países periféricos.
Para estes países, o modelo privado sujeitou-se historicamente a uma forte regulação estatal, fenômeno denominado pela literatura sanitária internacional como socialização da medicina. A autonomia dos serviços privados, portanto, para produzirem políticas de saúde, interferirem na Gestão Pública e determinarem sua organicidade nas Redes destes países é extremamente limitada e obedece, satisfatoriamente, a interesses públicos.
Para o Brasil, contudo, a liberalização (e emprego o termo propositadamente) do provimento privado de saúde, a parca regulação do setor pelo Estado, as diversas portas de entrada para o Sistema, fazem com que a CUS seja fator desordenador do SUS, aumente a retirada de financiamento por parte do privado e crie diversos subsistemas, fraturando tanto o provimento, quanto o acesso. Obviamente, este caos sanitário interessa às empresas de saúde que lucram com a captação de clientela.
Outro elemento crítico, sobretudo em se tratando de uma Conferência que irá incidir a política municipal de saúde, é significar o papel da Atenção Primária neste cenário.
A Atenção Primária à Saúde (APS), nominada no País como Atenção Básica, deve figurar como a única Porta de Entrada das cidadãs e dos cidadãos ao SUS. Para tanto, há atributos fundamentais a serem assegurados e providos pela Gestão Municipal, a fim de que a APS funcione, de fato, em toda sua potência:
1) O acesso deve ser facilitado e orientado para acolher necessidades em saúde no momento de sua apresentação;
2) As Unidades Básicas de Saúde (UBS) devem coordenar o cuidado de Saúde das pessoas; 
3) O cuidado ofertado deve ser potentemente abrangente; e
4) As pessoas devem ter direito a serem cuidadas longitudinalmente pelos mesmos profissionais.
É perverso observar que os Gestores não vêm investindo no fortalecimento da APS e dos seus atributos, porém, o Privado Suplementar tem optado por oferecer estes serviços, de forma sistemática e organizada. O objetivo do Privado, , não se pode negar, é reduzir custos com seus planos de saúde, empregando profissionais (como médicas e médicos de família, enfermeiras e enfermeiros de família, profissionais de nível médio) e processos de trabalho para produzir o que a literatura descreve como um cuidado altamente administrado para, no limite, negar acesso a rotinas e intervenções onerosas.
Assim, o Eixo I deve contemplar os seguintes debates:
1) Quais propostas do grupo em vistas à Universalidade do SUS - porta de entrada, carência de equipamentos e serviços da Atenção Básica, integração com a Rede ambulatorial especializada e hospitalar; avaliação do Plano Municipal de Saúde?
2) Na realidade atual do município, onde 45% da população tem plano ou seguro-saúde, o que o SUS poderia/deveria fazer em relação aos serviços privados? Ex: ressarcimento ao SUS, altas taxas de cesáreas nos hospitais privados, sífilis congênita nos hospitais privados, etc?
3) Quais as propostas do grupo em relação às OSS (prós e contras)?
EIXO II- INTEGRALIDADE E EQUIDADE
Sendo a Saúde um direito humano fundamental, a ser assegurado a toda brasileira e a todo brasileiro pelos princípios da Universalidade; Integralidade e Equidade dão profunda dimensão civilizatória a este direito, isto é, nossa Carta Magna não apenas determinou que a saúde esteja ao alcance de todos, como também seja produzida da forma mais abrangente possível, não negligenciando nenhuma dimensão da vida humana, e que esteja sempre a serviço de quem mais necessita, sobretudo em uma sociedade marcada por tantas e tamanhas contradições, desigualdades e injustiças.
Assim, torna-se fraudulento qualquer debate a respeito de promoção de saúde para a comunidade humana que não questione:
  • Por que as pessoas adoecem?
  • Há pessoas com mais risco de adoecer do que outras? 
     Pessoas que adoecem de formas diversas e por motivos diversos devem estar submetidas às mesmas estratégias de cuidado?
Frequentemente, nos acomodamos convenientemente na compreensão de cuidado em saúde como acesso a serviços e intervenções, ou, simplesmente, como prevenir agravos e promover condições saudáveis de vida, acabando por nos furtarmos do debate essencial: ‘não é possível produzir saúde sem justiça social’.
O retrato da desigualdade brasileira é doloroso e traz em si as marcas e agressões que podemos observar nos rostos da população mais vulnerável de nosso país, inclusive aquela do MSP. A organização internacional Oxfam, em setembro de 2017, publicou um extenso estudo das contradições sociais brasileiras, nominado “a distância que no une”. Os dados coletados foram obtidos de disponibilizações feitas pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD e pela Secretaria da Receita Federal, permitindo excelente avaliação da distribuição de renda e do acesso a serviços e políticas públicas pelo país.
Disparidades preocupantes ainda persistem. Apesar de melhora na diferença de rendimentos entre homens e mulheres, por exemplo, nas últimas décadas, sobretudo pelo maior ingresso destas no mercado de trabalho, a renda média do homem brasileiro persiste 38% superior a da mulher, sendo que a referida Organização projeta equiparação de ganhos apenas para 2047. Considerando os estratos mais ricos da população, para cada mulher recebendo 10 salários mínimos (sm) há, proporcionalmente 2 (dois) homens na mesma situação. Este cenário tonar-se ainda mais delicado ao se recordar que fenômenos como a dupla jornada de trabalho (em média, a mulher trabalha 7,5 horas a mais por semana do que o homem, em estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA no primeiro semestre de 2017) e a precarização dos vínculos formais de trabalho se mantém e fragilizam, sobretudo, a vida da trabalhadora.
Produzindo necessário recorte racial para compreender a desigualdade no acesso à renda, é possível verificar que 67% dos negros brasileiros recebem até 1,5 salário mínimo, não chegando a 20% a mesma população que obtém mais de 2 (dois) sm. Para cada negro com rendimentos acima de 10 salários mínimos (sm) há, proporcionalmente, 4 (quatro) brancos nesta condição. Recordando tratar-se de população historicamente marginalizada do processo civilizatório brasileiro, frequentemente periferizada, pode-se inferir a gravidade da sua situação ao nos depararmos com o fato de que a cobertura de fornecimento de água, própria para consumo, abrange apenas 62% daqueles que compõem 5% da população mais pobre, enquanto a oferta de rede de coleta de esgoto abrange apenas vergonhosos 25% da mesma população. Desassistidos por políticas públicas fundamentais para manutenção da dignidade da vida humana, não é de se estranhar o motivo de serem alvo frequente de ações de higienização social e eliminação, tornando-se vítimas, por eleição, da violência urbana, até mesmo institucionalizada.
Para estes segmentos da população brasileira é necessário sublinhar o registro do relatório:
“mulheres e negros são os maiores usuários do sistema público de saúde. Os acessos de mulheres a hospitais, postos de saúde e de vacinação, entre outros serviços públicos, giram em torno de 60% a mais do que os de homens, chegando esse percentual a 84% no Distrito Federal. Cerca de 75% das pessoas que se declaram negras usam serviços públicos de saúde, em comparação com uma proporção de 50% de pessoas brancas”. Assim, defender um Sistema Universal, Integral e Equitativo será sempre defender quem, ao longo do processo histórico, foi agredido e negligenciado.
Evidentemente, há outras comunidades e populações minoritárias em São Paulo que necessitam de atenção para que a política pública de saúde seja efetivada satisfatoriamente. A População de lésbicas, gays, transexuais e transgêneros - LGBTT é objeto persistente de reducionismo de suas pautas e necessidades em saúde, centralizadas por diversos Gestores e políticas públicas na prevenção de contaminação e transmissibilidade do human Immunodeficiency virus - HIV. É recentíssima a conquista do emprego do ‘nome social’ para transgêneros e transexuais, como também a ampliação do debate e da oferta de terapia de substituição hormonal. No entanto, o debate de acolhimento por e facilitação de acesso desta população aos Serviços de Saúde continua deficitário. As críticas e acúmulos a respeito dos exames de rastreamento pertinentes a serem ofertados, sobretudo à população transgênero e transexual, também são insuficientes para o enfrentamento desta questão.
Acessibilidade e inclusão devem, vigorosamente, ingressar como pauta das Redes de Atenção à Saúde no MSP. Possuímos um mobiliário urbano, bem como instalações de Serviços de Saúde e, até mesmo, recurso humano extremamente deficitário no acolhimento e no cuidado com as e os portadores de deficiência física. Limitações ou inadequações de espaços para trânsito de cadeiras de rodas, orientações e disposições de espaços adequadas para pessoas com restrições de visão, ausência frequente de intérpretes para linguagem de sinais e dificuldade em acessar pessoas durante consultas e procedimentos devem ser fortemente questionadas.
Recortando particularmente para o universo do cuidado em saúde, um drama frequentemente experimentado pela população no contato com os serviços, sobretudo os serviços de Atenção Primária à Saúde, é a baixa oferta de intervenções e rotinas de procedimentos que, a seu tempo, também determinam impacto negativo na integralidade do Nível de Atenção e do Sistema. Unidades Básicas de Saúde que não realizam inserção de Dispositivo Intra-Uterino; ou limpeza de conduto auditivo; ou que não produzem pequenos procedimentos ambulatoriais, como cantotomia (retirada de unha encravada), ou retirada de nevos (sinais de pele) não podem ser considerados efetivos equipamentos de APS.
Assim, o Eixo II deve contemplar os seguintes debates:
  1. 1)  Como a SMS e a política municipal de saúde podem conjugar investimento urbano para produzir uma cidade mais saudável? Cite propostas.
  2. 2)  Quais as propostas do grupo, tendo em vista a Integralidade e a Equidade?
EIXO III- DESCENTRALIZAÇÃO, RECURSOS HUMANOS E EDUCAÇÃO PERMANENTE
A consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) depende da superação de diversos desafios. Um deles - provavelmente o principal - é a gestão do trabalho e a educação na saúde, uma vez que a potência do sistema está justamente em seus trabalhadores, que somam mais de 2 milhões e 300 mil em todo país (dados do Ministério da Saúde).
O “exército do SUS”, como usualmente é chamado a força de trabalho do SUS é constituído por homens e mulheres que se esforçam, estudam e trabalham para promover o cuidado e a atenção à saúde dos cidadãos brasileiros. Portanto, o maior desafio deste tema é a valorização desses profissionais por meio da melhoria de suas condições de trabalho, remuneração e relações trabalhistas.
Neste sentido, foram elencadas algumas propostas para serem debatidas nas pré-conferências:
  1. Revisão e atualização das TLPs (Tabela de Lotação de Pessoal) dos Serviços de Saúde, adequando-as às necessidades da rede;
  2. Estabelecer indicadores de qualidade, acompanhamento, e produção da Atenção Primária que tenham respaldo na literatura científica e que sejam pactuados com trabalhadores e usuários.
  3. Implantar e implementar uma política de humanização das condições de trabalho e atenção ao usuário em conformidade com as premissas da saúde com qualidade de vida, envolvendo profissionais, usuários e gestores;
  4. Ampliar e implantar polos de educação permanente em saúde em todos os territórios do município, com objetivo de discutir as necessidades de saúde da população e aos princípios e diretrizes do SUS, com garantia de trabalhadores em quantidade suficiente e recursos, físicos e financeiros;
  5. Garantir formação dos profissionais em temas voltados para populações vulneráveis, como população LGBT, população negra, indígena, mulheres, pessoa com deficiência, imigrantes e idosos;
  6. Campanha dirigida aos trabalhadores da saúde, independentemente do vínculo empregatício, esclarecendo seus direitos e deveres, para estimular o respeito mútuo e a redução de violência nas relações de trabalho;
  1. Formalizar e fortalecer a integração dos programas de residência médica, residência, residência multiprofissional e cursos de graduação das instituições de ensino superior com a rede municipal da saúde por meio do reconhecimento e valorização das atividades de preceptoria;
  2. Oferecer apoio para expansão de programas de residência médica e multiprofissional, criando estratégias para reduzir o número de vagas não preenchidas em Medicina de Família e Comunidade que utilizam a rede municipal como cenário de prática;
  3. Estabelecer como política do SUS a profissionalização técnica, na qual as Escolas Técnicas de Saúde cumpram o papel fundamental de escolarização, qualificação, habilitação profissional e educação permanente para agentes, auxiliares e técnicos dos mais diversos setores da saúde;
  4. Garantir a efetivação de programa de profissionalização do Auxiliar de Enfermagem que trabalha na rede SUS para Técnico de Enfermagem, viabilizando a transformação de seu cargo após a formação;
  5. Criar e implementar uma política integrada e humanizada de promoção, prevenção, atenção e reabilitação da saúde dos trabalhadores da saúde, garantindo-lhes o direito a um ambiente de trabalho saudável;
  6. Estabelecer processos formativos (Educação Permanente) para usuários, trabalhadores e gestores, para melhor qualifica-los para exercer o Controle Social.
Assim, o Eixo III deve contemplar os seguintes debates:
1. Que outras propostas foram discutidas e aprovadas pelo Grupo?
2. Como os trabalhadores da administração direta, indireta e os contratados pelas Organizações Sociais podem participar do controle social e contribuir para uma melhor transparência e democratização nas relações de trabalho e nas decisões junto aos gestores e administradores da saúde?
EIXO IV - FINANCIAMENTO DO SISTEMA E FUNDO MUNICIPAL DE SAÚDE
A Emenda Constitucional (EC) 86/2015 e a EC 95/2016 introduziram dispositivos na Constituição Federal com efeitos negativos para o planejamento e execução orçamentária e financeira do Ministério da Saúde, agravando o processo de subfinanciamento do SUS: a primeira estabeleceu a execução orçamentária obrigatória das emendas parlamentares individuais em 0,6% da Receita Corrente Líquida; e a segunda retirará recursos de dotações orçamentárias destinadas às despesas sociais a partir de 2017, incluindo da seguridade social, e do SUS a partir de 2018 (e até 2036), por meio de uma regra que estabelece um “teto” (limite máximo) anual de despesas calculado pela variação anual da inflação (medida pelo IPCA/IBGE) – o que implicará na redução dessas despesas em termos per capita como decorrência do crescimento populacional no mesmo período.
A principal motivação para a promulgação da EC 95/2016 – cuja proposta de emenda constitucional (PEC) foi encaminhada pelo governo federal ao Congresso Nacional em meados de junho/2016 e tramitou na Câmara dos Deputados como PEC 241 e no Senado como PEC 55 – foi a necessidade de reduzir o déficit primário (diferença negativa entre as receitas primárias e as despesas primárias) por meio de um ajuste fiscal concentrado na redução das despesas primárias nos próximos 20 anos e sem medidas para aumentar a receita como a revisão tanto da regressividade tributária, como da renúncia fiscal. O objetivo último desta medida é gerar superávit primário para financiar as despesas financeiras que, diferentemente das primárias, não terão nenhuma limitação até 2036 e, também, não serão auditadas. (FUNCIA, Francisco R. Subfinanciamento e Orçamento Federal do SUS: referências preliminares para a alocação adicional de recursos. Texto apresentado no Seminário “Saúde sem dívida e sem mercado”, na mesa “Correlação de forças e o SUS sem dívida e sem mercado”, realizada em 28 de junho de 2017, na Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz), no Rio de Janeiro, coordenada pela Dra. Leticia Krauss (Ensp/Fiocruz), do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz. Disponível em http://www.cee.fiocruz.br/sites/default/files/Artigo_Funcia.pdf).
Considerando este contexto, agravado pela recessão econômica que impacta negativamente a arrecadação pública, bem como o fato que 2/3 das despesas do Ministério da Saúde são destinadas às transferências fundo a fundo para Estados, Distrito Federal e Municípios, a queda do financiamento federal do SUS prejudicará decisivamente a realização das ações e serviços de saúde nos Municípios se estes, assim como os Estados, não alocarem recursos adicionais.
Nessa perspectiva, é fundamental a adesão da sociedade ao abaixo assinado “O SUS não pode morrer! Assine contra a redução de investimentos em saúde” (disponível on line em http://www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR102140), organizado pela Frente em Defesa do SUS e pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS), em apoio à Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 5.658 (em tramitação no Supremo Tribunal Federal) com o objetivo de suspender os dispositivos da EC 95/2016 que reduzem os recursos para o financiamento do SUS. Vale lembrar que a cautelar do Ministro Lewandwoski na ADI 5595, em processo de votação no plenário do STF, também será importante para que a tese que impede a redução de recursos para o financiamento do SUS prevaleça sobre as medidas de ajuste fiscal que promovem a retirada de direitos fundamentais à vida.
O cenário que nos aguarda para o próximo período é o de desfinanciamento agudizando o subfinanciamento crônico do Sistema de Saúde. Já em 2017 efeitos deletérios do comprometimento do Estado Brasileiro, exclusivamente com as despesas financeiras (isto é, recurso público investido a favor da dívida e do juro da dívida brasileiros) fizeram-se sentir: estudo elaborado pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos – INESC aponta crescimento da fatia do orçamento comprometida com este tipo de exercício de 45% para 53%, quase totalizando R$2 trilhões, enquanto que o orçamento destinado a financiar políticas e direitos sociais sofreu redução de 55% para 47%, mesmo com aumento de arrecadação.
É oportuno recordar a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo (SMS-SP) optou por emergir do primeiro semestre de 2017 reduzindo o valor orçado por ação de diversas unidades orçamentárias, como por exemplo, construção e reformas para instalação de UPA (redução autorizada de 88,59%) e de operação e manutenção para atendimento ambulatorial básico, de especialidades e de SADT (redução autorizada de 99,97%) e contingenciando investimentos, como congelamento da operação e manutenção de Unidades de Saúde (autorizado de 23,96%) e de ‘construção, ampliação e reforma’ de estabelecimentos de saúde (autorizado de 33,52%), isto é, revelando a adoção de um sitiamento fiscal para ampliação da Rede de Atenção à Saúde, podendo deixar o MSP sucateado para o próximo período de ‘vacas magras’.
Não se deve ignorar, igualmente, que o provimento de APS pode sofrer duro impacto deste cerceamento fiscal. A Nova Política de Atenção Básica, promulgada sob a forma da Portaria no 2.436, em 21 de setembro de 2017, em seu 6o capítulo – “do financiamento das ações de atenção básica” – é extremamente reticente, o que nos permite acusá-la de imprevidente, com a destinação de recursos para a Estratégia prioritária e com maior acúmulo de evidências científicas de que tenha produzido uma Atenção Primária verdadeiramente custo-efetiva: a Estratégia de Saúde da Família (ESF). Segundo esta Portaria, a qual relativiza o provimento de cuidado pela APS entre o modelo tradicional e a ESF, “os valores dos incentivos financeiros para as equipes de Saúde da Família implantadas serão prioritário e superior (ao de outros modelos de provimento), transferidos a cada mês (...). O valor do repasse (...) será publicado em portaria específica”. Isto é, permanece o indicativo de que a ESF seja prioritária, mas ainda com financiamento não normatizado.
É oportuno relacionar esta nova PNAB com a proposta da Comissão Intergestores Tripartite (CIT), materializada na Portaria GM N. 1.091, de 27/04/2017, que visa a extinção dos seis blocos de financiamento para as transferências fundo a fundo – Atenção Básica, Média e Alta Complexidade, Assistência Farmacêutica, Vigilância em Saúde, Gestão do SUS e Investimento – e substituir por apenas duas categorias de repasses – custeio e capital: considerando o cenário descrito anteriormente, qualquer flexibilização na forma de repasse representa uma grave ameaça ao financiamento da Atenção Básica e, consequentemente, inviabiliza a mudança do modelo de atenção à saúde que tenha na atenção básica a ordenadora da rede de serviços. Essa proposta apresentada na CIT em janeiro/2017 ainda não foi formalmente submetida à deliberação do Conselho Nacional de Saúde (CNS) para entrar em vigor, conforme estabelece a Lei Complementar no 141/2012. Sobre isto, inclusive, o CNS aprovou a Recomendação 006, de 10/03/2017 (disponível em http://www.conselho.saude.gov.br/recomendacoes/2017/Reco006.pdf), propondo um processo de transição com ações a serem desenvolvidas para ampliar o debate em torno desse tema, uma delas, adotar somente seis contas bancárias (uma para cada bloco) para essas transferências fundo a fundo em substituição ao que é realizado atualmente, entre outras.
Assim, o Eixo IV deve contemplar os seguintes debates:
1) Como produzir efetivo controle sobre o orçamento da gestão e comprometê-lo com
ampliação da Rede de Atenção à Saúde?
2) Como exigir da gestão precaução e comprometimento com financiamento e manutenção de direitos fundamentais e políticas sociais, inclusive para o efetivo exercício do papel do Conselho Municipal de Saúde e dos Conselhos Gestores de Saúde nos aspectos econômicos e financeiros como preconiza a Lei 8142/90 ?
3) Como o Controle Social pode, de fato, compreender melhor e exercer efetivo controle sobre o financiamento?
EIXO V- PARTICIPAÇÃO SOCIAL
O SUS, acúmulo de lutas amplas dos setores sociais, que incluíram desde os movimentos populares até as instituições acadêmicas e a intelectualidade sanitária, jamais poderá ser descolado de seu caráter profundamente democrático e popular. Isto, para além da promulgação da Lei no 8.142 de 1990, que dispõe a respeito da participação comunitária na gestão do Sistema, deve provocar em todas e em todos a mobilização por defesa e contínua melhoria do maior patrimônio sanitário brasileiro.
Cada vez mais os Sistemas Nacionais de Saúde e os próprios atores políticos vêm indicando a necessidade de fazermos a transição do modelo de oferta e elaboração de políticas de saúde de uma perspectiva centrada ou na incorporação de tecnologias, ou no enfrentamento vertical e programático de doenças, para o modelo de Sistemas Centrados em Pessoas. No cenário internacional isto significa um avanço no cuidado de cada ser humano e no atendimento a suas necessidades, porém ainda necessita de um salto de qualidade.
São fartas as evidências científicas que revelam o desperdício, ou mau emprego de investimento público, quando o Estado e os Gestores fixam-se em ou incorporar inescrupulosamente tecnologias e intervenções em saúde, ou utilizar seu protagonismo político para elaborar programas verticais de combate a doenças específicas. No primeiro caso, a produção tecnológica no mundo globalizado e capitalizado é intensa, o que não concede à ciência tempo necessário para a devida investigação, buscando atestar a eficácia e a segurança de diversos recursos lançados ao mercado. Exemplo nacional recente do fato foi à tentativa do emprego da Fosfoetanolamina como fármaco para tratamento de neoplasias. Da mesa forma, a segunda alternativa é extremamente iníqua, porque segmenta a população entre as que são e os que são elegíveis para ser incluídos nos programas de atenção e cuidado, como, por exemplo, os grupos de hipertensos e diabéticos, negligenciando diversos outros problemas de saúde, por vezes mais delicados.
A perspectiva de elaborar um Sistema e Políticas centrados em pessoas é, justamente, reconhecer a particularidade das experiências de adoecimento, de doenças e para, além disto, de produção de vida e formas de cuidado. É necessário observar que centrar Sistemas e Políticas em pessoas não significa submeter o interesse coletivo aos anseios individuais, fortalecendo relação utilitarista e comercial com o SUS. Antes, significa reconhecer a singularidade das necessidades e o protagonismo das comunidades e dos indivíduos que as compõem para construir e produzir políticas de cuidado. O objetivo é vencer o isolamento institucional para alcançar a efetiva democratização dos processos do Sistema.
Assim, o Eixo V deve contemplar os seguintes debates:
1) Como tornar os Conselhos e os Espaços de Deliberação mais participativos e resolutivos?

2) Como tem sido o diálogo entre os Movimentos Populares e as Representações em todo o território? Quais são as propostas do grupo para: Ouvidoria, orçamento dos conselhos gestores das STS, deliberações e resoluções dos conselhos gestores?

 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Usuários do Centro de Saúde Escola Geraldo Paula Souza pressionam a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo

Usuários do Centro de Saúde Escola GPS da USP pressionam a Secretaria Municipal de São Paulo para renovação do convênio entre a SMS-SP, a USP e o CEAP

Por Eveline S. Araujo*


“Se você paga, não deveria, saúde não é mercadoria”, com esse slogan ocorreu a primeira de uma série de manifestações públicas previstas dos usuários e trabalhadores do Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza (CSEGPS-USP) que há 92 anos presta Atenção Básica na Saúde, na capital paulista. A manifestação ocorreu na manhã do dia 30 de outubro, e utilizou como estratégia vários bloqueios temporários do trânsito da Av. Dr. Arnaldo e da Av Teodoro Sampaio para alertar a população sobre descaso com a saúde na atual gestão da prefeitura, sobre as expectativas do Governo do Estado em congelar investimentos e também do Governo Federal que investe cada vez menos em Saúde e favorece a iniciativa privada.






Os usuários pedem assinatura imediata da renovação do convênio por parte da Prefeitura e um compromisso de continuidade de investimentos por parte do Governo de Estado, como argumentado na mesa de debate “Querem fechar o Centro de Saúde da minha Escola”, promovido pelo Centro Acadêmico Emílio Ribas ao final do dia no Auditório da Faculdade de Saúde Pública-USP (FSP-USP). O movimento conta com o apoio dos trabalhadores, dos conselheiros de saúde da regional Lapa-Pinheiros e dos alunos da FSP-USP.



Diante das inúmeras tratativas sem sucesso, os usuários e conselheiros acionaram o Ministério Público para acompanhar as negociações. A discussão gira atualmente em torno de que as características genuínas do CSEGPS ser um espaço onde ocorre a prestação de serviço em saúde aliado à pesquisa científica e à educação profissional para o SUS, portanto não obedece a mesma métrica produtiva das UBS tradicionais, pois comporta outras funções como tutoria, estágios e pesquisa de ponta, que é a parte oferecida pela USP no acordo. Sendo a contratação dos funcionários mantidos pela Prefeitura mediada pelo CEAP.

A opção dos últimos anos em nível Federal por um Estado mínimo não contempla o que consta na Constituição Federal de 1988, que com muita luta e mobilização nacional conseguiu implantar o SUS com os princípios de universalidade, equidade e integralidade. O SUS foi projetado para atender a todos os cidadãos, de qualquer classe social, entretanto muitos só lembram do SUS nas campanhas de vacinação, quando precisam de medicamentos caros, por ocasião de transplantes de órgãos ou quando percebem a deficiência de seus planos de saúde. O SUS tem um conceito e uma prática bem maior do que isso, que vale tratar mais aprofundadamente em outros artigos. Entretanto, há uma grande parte da população de idosos e trabalhadores, que foram esmagados pela reforma da previdência e trabalhista que formam um contingente imediato de pessoas que voltam a depender do bom funcionamento do SUS para sobrevivência e manutenção da dignidade humana.

A tentativa bastante questionável de uberização da saúde com a oferta de serviços “acessíveis,” mas sem compromentimento com o usuário, que estão sendo ofertadas por algumas empresas têm por trás todo um sistema de beneficiamento político e econômico para acelerar o desmonte do SUS. As perguntas que ficam são: será que as Políticas Públicas de Saúde como o Programa Saúde da Família, o Programa Mãe Paulistana, os programas de combate a AIDS e tantos outros irão continuar a existir com esse desmonte? E com qual estrutura irão manter essas ações? E o dever do Estado como fica? E o principal, o projeto de nação desse país, com esses desmontes como fica?

A atual gestão da Prefeitura Municipal de Saúde pretende fechar ainda mais 50 UBS e acabar com todas AMAs, isso dito em audiência pública, confirmando a estratégia de acabar com o serviço público e depois passar para mão da iniciativa privada, que já é beneficiada pelas Organizações Sociais de Saúde que contaminaram o sistema público de saúde. Tudo isso tem uma relação muito danosa para a população a médio e longo prazo. A preocupação maior é onde a população será tratada? Já se paga imposto para a saúde e ainda terá que pagar para ser consultado? Essa dupla cobrança não faz sentido, por isso o slogam deve ser levado a sério. Saúde não é mercadoria. Vivemos em uma falsa democracia onde o executivo compra o legislativo e faz o que bem entende, a quem pensam enganar?

Os usuários, trabalhadores e alunos da USP irão manter a mobilização e irão apoiar outros movimentos que já ocorrem em vários pontos da cidade como no Butantã, Pompéia, formando redes de solidariedade como num retorno aos anos 70/80, lutando por melhores condições de vida e por um Estado de Bem Estar Social que minimize as desigualdades sociais, decorrentes da falta de escrúpulo de políticos e empresários que permanecem com um pensamento neoliberal inconsequente. A ideia é somar força com outras mobilizações na cidade, no Estado e no Brasil para defender de maneira mais ampla o sistema de saúde como um todo.

Quem quiser poderá acompanhar as ações por facebook, youtube e vários outros canais ou participar diretamente das reuniões nas quartas-feiras, sempre às 9 h 30 min da manhã no CSEGPS-USP.

* Jornalista, Me. em Antropologia Social e Doutora em Saúde Pública

Pessoas para contato: Agueda Brazzolotto - Usuária e conselheira no Conselho Municipal de Saúde da Zona Oeste; Teresa Lima - Usuária e ex- funcionária do CSEGPS; Rodolfo Neder - Usuário e vice-presidente da Assosiação de Usuários do CSEGPS. 


Locais para acompanhar a mobilização:  
https://www.facebook.com/usuariousosus/ 
https://www.youtube.com/watch?v=HR_V60GoG-U 
https://www.facebook.com/csefsp.usp.3 
https://www.youtube.com/channel/UCthnvjlkPqWzvmSPj__xziw/videos

Depoimento da Sra. Antonia, usuária do Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza