quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Diabetes em idosos requer cuidados redobrados

O risco de sofrer problemas cardiovasculares, como AVC e infarto, aumenta nessa faixa etária em pacientes diabéticos


A população brasileira está vivendo cada vez mais. Um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) informa que até 2050, 30% dos brasileiros terá mais de 60 anos (1). Dentre as doenças mais comuns em idosos, destaca-se o diabetes tipo 2, que além de necessitar de cuidados especiais para a terceira idade também pode levar a outras complicações, como as doenças cardiovasculares.

A insuficiência cardíaca é a principal causa de internação e a obstrução das artérias coronárias é responsável por cerca de 70% a 80% das mortes em idosos (2). Por essa razão, o cardiologista e geriatra Dr. Roberto Miranda ressalta a importância da prevenção cardiovascular em pacientes idosos com diabetes tipo 2, já que o risco de infarto em diabéticos é de 2 a 4 vezes maior se comparado com um indivíduo que não tem a doença (3).

“É surpreendente que muitos pacientes ainda não saibam que o diabetes é responsável por aumentar os riscos de doenças no coração. A doença cardiovascular no diabético mata mais que HIV, tuberculose e câncer de mama na população mundial4,5. Esta é uma complicação silenciosa que precisa ser do conhecimento de todos”, explica o cardiologista.

Por essa razão, é fundamental que o paciente procure seu médico para saber mais sobre as melhores opções de tratamento. Confira abaixo outros cuidados importantes que o paciente idoso que tem diabetes precisa ter:



Controle da pressão arterial e dos níveis de colesterol

A pressão arterial e o colesterol precisam ser tão monitorados quanto os níveis de glicose no idoso com diabetes. Há estudos expressivos que defendem que o controle simultâneo da pressão arterial, do colesterol e do açúcar no sangue é fundamental para a redução de morte em razão de complicações cardiovasculares (2,4). A pressão alta pode causar doenças como angina, caracterizada pela dor no peito em função do enfraquecimento dos músculos do coração, isquemias, que acontecem com a interrupção do fluxo sanguíneo em uma artéria, e infarto do miocárdio, causado pela obstrução de uma artéria coronária.



Atenção à comorbidade e prevenção de interação farmacológica

A comorbidade, que é presença de duas ou mais doenças crônicas concomitantes em um indivíduo, é outra questão que merece muita atenção nos idosos diabéticos. Por terem, geralmente, mais doenças que as pessoas mais jovens, os idosos fazem uso de vários medicamentos, o que pode acarretar em uma interação farmacológica e, consequentemente, um tratamento pode interferir no outro, piorando o estado de saúde do paciente. “Por isso, é fundamental que os idosos consultem médicos, como o geriatra, que gerenciem a saúde como um todo, analisando todas as patologias e seus respectivos tratamentos, assim com complicações que podem surgir no meio do caminho”, explica Dr. Miranda.



Risco de hipoglicemia

Pode acontecer de o paciente idoso esquecer-se de tomar o medicamento ou ainda de tomar duas vezes em um único dia. Segundo o médico, tomar por engano o medicamento para diabetes duas vezes é extremamente preocupante. “Em casos em que o paciente toma uma dose maior do que a prescrita, dependendo do medicamento, ele pode sofrer hipoglicemia, que é uma queda acentuada do nível de açúcar no sangue”, explica. Sudorese, palpitação, sonolência e cansaço são os principais sintomas da hipoglicemia, mas nos idosos esses sintomas podem demorar mais para aparecer e ainda podem ser confundidos com alterações neurológicas. Assim sendo, é importante que os cuidadores e familiares estejam atentos à frequência e uso das medicações.



Prevalência de sedentarismo

Quanto mais idade, maior é a prevalência de obesidade e de sedentarismo. É natural que o idoso mude a sua rotina de vida, exercitando-se menos por uma limitação natural do seu físico. Entretanto, para o idoso que tem diabetes, a recomendação é não se acomodar e manter um estilo de vida saudável e ativo. O cardiologista reforça a necessidade de consultar um médico antes do início de atividades físicas. “O idoso precisa receber uma recomendação médica, alimentando-se antes dos exercícios para evitar hipoglicemia, vestindo roupas adequadas com a temperatura do ambiente e se hidratando previamente para evitar desidratação, que também acontece mais facilmente quando há alta dos níveis de glicose”, conclui. 



Referências

1. Organização mundial da saúde. Disponível em: http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/186468/6/WHO_FWC_ALC_15.01_por.pdf, acesso em 29.08.2017.

2. Arq. Bras. Cardiol. vol.79 no.6 São Paulo Dec. 2002. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0066-782X2002001500011. Acesso em 28.08.2017.

3. Sociedade Brasileira de Diabetes. Disponível em: www.diabetes.org.br, acesso em 1/6/2017

4. IDF Diabetes Atlas, 2015. 7th Edition. http://www.idf.org/diabetesatlas..

5. OMS – Globocan 2012 :Estimated Cancer Incidence, Mortality and Prevalence in 2012 disponível em: http://globocan.iarc.fr/Pages/fact_sheets_cancer.aspx, acesso em 14/1/2016.


Fonte: conteúdo enviado pela agência de comunicação Weber Shandwick. A matéria dá bastante foco a atendimentos médicos e tratamentos farmacológicos, mas em muitos casos outros profissionais também são indicados para a atenção da pessoa idosa, e há ainda práticas promotoras de saúde coadjuvantes ou substitutivas, conforme o caso, à terapia medicamentosa.



Destaco do "Relatório Mundial de Envelhecimento e Saúde" (disponível para baixar em: http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/186468/6/WHO_FWC_ALC_15.01_por.pdf), da Organização Mundial de Saúde, o seguinte trecho, que contesta as justificativas dos planos de saúde para aumentos abusivos para faixas etárias acima de 59 anos de idade:

"Outra suposição comumente feita é de que as crescentes necessidades de populações maiores levarão a aumentos insustentáveis nos custos de saúde. Na realidade, esse cenário não está muito claro. 

Embora a idade avançada seja geralmente associada a aumento nas necessidades relacionadas à saúde, a associação com a utilização de cuidados de saúde e das despesas é variável (14–17). De fato, em alguns países de alta renda, as despesas de saúde por pessoa caem significativamente após aproximadamente 75 anos de idade (enquanto as despesas com cuidados de longo prazo aumentam) (18–20). Uma vez que mais e mais pessoas estão chegando a idades mais avançadas, permitir que elas levem uma vida longa e saudável pode, portanto, realmente aliviar as pressões sobre a inflação nos gastos com saúde. 

A associação entre idade e gastos com saúde também é fortemente influenciada pelo próprio sistema de saúde (21). Isso provavelmente reflete diferenças em sistemas de provedores, incentivos, abordagens de intervenções em adultos maiores frágeis e normas culturais, principalmente próximo ao falecimento. 

Na verdade, não importa quantos anos temos, o período de vida associado com os maiores gastos de saúde está relacionado ao último ou dois últimos anos de vida (22). Porém, essa relação também varia significativamente entre os países. Por exemplo, cerca de 10% de todos os gastos com saúde na Austrália e nos Países Baixos, e cerca de 22% nos Estados Unidos, são incorridos no cuidado de pessoas durante o seu último ano de vida (23–25). Além disso, os últimos anos de vida tendem a resultar em gastos mais baixos com saúde nos grupos de idades mais avançadas. 

Embora mais evidências sejam necessárias, prever custos futuros de saúde com base na estrutura etária da população é, portanto, um valor questionável. Isso é reforçado por análises históricas que sugerem que o envelhecimento tem muito menos influência sobre os gastos com saúde do que diversos outros fatores. Por exemplo, entre 1940 e 1990 nos Estados Unidos (um período de envelhecimento significativamente mais rápido da população já ocorrido), o envelhecimento parece ter contribuído apenas cerca de 2% dos gastos com saúde, enquanto as mudanças relacionadas à tecnologia foram responsáveis entre 38% e 65% de crescimento (19)."

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Todo o poder de controle circula entre o povo, que o exerce através de dispositivos disciplinares do corpo e reguladores da população

Car@s Amig@s da blogosfera.



Compartilho aqui com vocês algumas reflexões a partir da leitura do último capítulo do livro “História da sexualidade 1: A vontade de saber” de Michel Foucault, para a disciplina de “Estudos de Biopolítica e Saúde”, da pós-graduação da Faculdade de Medicina da USP, sob coordenação dos Professores Ricardo Rodrigues Teixeira e Rogério da Costa Santos.

Na verdade, este é um convite para a continuação e ampliação do diálogo na rede, através de novos comentários e reflexões que venham se somar a esses que publico agora.

E começo questionando: quando nos interrogamos “qual o sentido da vida”, não estaríamos na verdade tentando identificar as forças que operam sobre a nossa vida e que nos conduzem pelos caminhos que seguimos?



imagem de capa do livro “O Leviatã” de Thomas Hobbes (com a ideia de poder como exercício da soberania, contestada por Foucault), trazida em aula pelo Prof. Ricardo



Direito de morte e poder sobre a vida – reflexões

Em “Direito de morte e poder sobre a vida”, último capítulo do livro “História da sexualidade 1: A vontade de saber”, Foucault analisa os diferentes tipos de poder exercidos na história e sua relação com o desenvolvimento de mecanismos ou tecnologias de governo da vida.

O primeiro tipo identificado por Foucault é o poder sobre a morte, o poder do soberano, como um poder de dispor da vida dos súditos, simbolizado pelo gládio (espada de guerra). O soberano possuía legitimidade para decidir sobre a morte dos súditos. O soberano era titular do “direito de apreensão” (confisco como mecanismo de poder), de se apoderar da vida dos súditos para depois suprimi-la, como referido expressamente por Foucault (fls.129 do pdf). Numa analogia com o conceito atual de capacidade jurídica, os súditos poderiam ser considerados como “menores” em função da ausência de capacidade de decisão sobre a própria vida. Sob essa premissa, o suicídio seria uma forma de emancipação. Mas mesmo podendo decidir a morte dos súditos, o soberano não os conduzia diretamente na forma de levar a vida.

A partir da época clássica, o confisco da vida deixa de ser o principal mecanismo de poder, cedendo espaço à gestão da vida em si como foco do exercício de poder em defesa da sobrevivência de determinada população. A intervenção direta na conduta humana passa a ser o principal mecanismo de poder. No lugar da espada do soberano a guerra em nome do Estado, consubstanciada num poder de morte ampliado, plural, mas em nome da sobrevivência de um povo a partir do extermínio ou dominação de outro. Neste caso, o suicídio seria também uma forma de emancipação, não em relação ao soberano, mas ao controle do Estado e da sociedade. Uma forma de resistência ao poder controlador através da eliminação do objeto de intervenção do poder: a própria vida.

À morte então se opõe a proteção das vidas, e somente invocando esta razão é possível legitimar a decisão de causar a morte de alguém, como um “perigo biológico para os outros” como menciona Foucault (fls. 131 do pdf). Não seria exatamente esse o fundamento para isolar do convívio com a sociedade os condenados pela Justiça Penal, os “loucos”, os adictos, porque representariam um perigo para a vida dos outros? Um perigo para a “normalidade” da vida em sociedade? Ainda os pobres nas regiões periféricas das cidades, como forma de impedir-lhes a ocupação dos espaços centrais e estratégicos na condução do funcionamento da sociedade?

Foucault então identifica o segundo tipo de poder, o poder sobre a vida, na forma de disciplinas do corpo e de regulação da população, ambas voltadas à gestão da vida. Ambas instituem a vida como “produto” do poder. E no sistema capitalista, o “produto-vida” (individual e coletivo) tem um valor diferenciado conforme lhe são atribuídos mais ou menos investimentos sobre o corpo vivo. O controle assim é exercido através da depreciação das vidas desconformes ao modelo capitalista, que justifica a atuação das forças que sustentam os processos econômicos bem como a segregação e hierarquização social (fls. 133 do pdf).

O biopoder é ativado a partir do momento em que a subsistência como possibilidade de vida para além do atendimento das necessidades básicas e defesa contra os riscos biológicos (fome e peste) é possível ser garantida por tecnologias de produção de alimentos e de estudo da vida. O saber sobre a vida é assim localizado como poder sobre a vida, como uma tecnologia política.

Ao afirmar que “o homem moderno é um animal, em cuja política, sua vida de ser vivo está em questão” (fls. 135 do pdf), estaria Foucault questionando ou refutando a ideia de livre arbítrio? Qual a real autonomia do homem moderno na condução de sua vida? A consciência dos mecanismos e técnicas de poder em ação na condução da vida podem produzir gradações entre a autonomia limitada e a total escravidão? E se a consciência se desenvolve a partir da experiência prática, estando o homem numa contínua prática controlada, como escapar a esse controle, ou seja, conquistar sua autonomia na condução da vida?

Na sociedade do controle o direito exerce um papel fundamental como poder regulador da vida e de suas possibilidades. As normas jurídicas se constituem como ferramentas do poder político sobre a vida, objeto de normalização, através da reprodução normativa em outras searas. É assim que as pessoas aceitam e consideram natural viver uma vida regrada. Mas como foco do poder político, a vida se sobrepõe e resiste ao direito como norma de proteção do Estado, para transformar o direito em ferramenta de defesa da própria vida, para proteção das necessidades fundamentais do homem e na luta pela plenitude existencial (fls. 137 do pdf). Mas de que vidas estamos falando? Quais as reais possibilidades de resistência ao poder controlador e de luta em defesa de uma vida plena tem as pessoas em situação de vulnerabilidade social, cuja vida se resume à busca pelo atendimento das suas necessidades básicas e defesa contra os riscos biológicos (fome e doenças)?

Como consequência lógica do poder sobre a vida, o sexo se tornou alvo central das intervenções políticas, pela possibilidade de exercício concomitante das duas formas de poder sobre a vida: disciplina do corpo e regulação da população. Na sociedade do sexo, a sexualidade é objeto do poder político visando o controle da vida, do corpo individual e social. Nas palavras de Foucuault “O sexo é acesso, ao mesmo tempo, à vida do corpo e à vida da espécie” (fls. 138 do pdf). Não é à toa que as disputas envolvendo o sexo costumam ser tão acirradas, como ocorre nos debates sobre o direito (a norma é amiga íntima da sexualidade!) ao aborto.

A partir dessa ideia, é possível entender também por que a mulher e o corpo da mulher se constituíram ao longo do tempo aparentemente como objeto de desejo, sendo, em realidade, objeto estratégico de poder: é sobre o corpo da mulher que as disciplinas e as regulamentações operam de maneira simultânea no controle do corpo individual e social. Todas as quatro linhas de ataque de controle político do sexo apontadas por Foucault (sexualização infantil, histerização das mulheres, controle de natalidade e psiquiatrização das perversões) envolvem a vida das mulheres, ainda que indiretamente no papel de mães.

A substituição (com justaposições, interações e ecos de uma em relação à outra) da sociedade da sanguinidade, que tem as relações de sanguinidade como símbolo, pela sociedade do sexo, que tem a vida como objeto e alvo de intervenção política, foi promovida pelo desenvolvimento dessas novas técnicas de poder sobre a vida. A sexualidade é instrumentalizada para controlar a vida, possuindo efeito com valor de sentido (fls. 140 do pdf). Quando nos questionamos “qual o sentido da vida”, não estaríamos na verdade tentando identificar as forças que operam sobre a nossa vida e que nos conduzem pelos caminhos que seguimos? O filme “O sentido da vida” (em inglês “The meaning of life”) do grupo inglês Monty Python aborda essa questão de forma bastante pitoresca:



A preocupação com a perfeição da espécie, traço característico das ideologias eugenistas, é um retrato da passagem da sociedade da sanguinidade para a sociedade do sexo. Mas a ideia de sanguinidade é retomada na formação do racismo em interação com a sexualidade, com intervenções sobre a vida e o corpo individual e social fundamentadas na pureza do sangue, visando o triunfo da raça. Foucault cita as práticas nazistas de Hitler como o maior massacre da história da humanidade, mas a escravidão e tráfico negreiro poderiam se igualar ou até mesmo superar o suplício das vítimas do nazismo. A diferença é que os negros africanos foram escravizados na condição de propriedade dos senhores – submetidos, portanto, ao poder soberano de morte – e após a condenação jurídica da escravatura foram alçados à condição de raça inferior na sociedade do sexo. Sofrem, em fases diferentes da história, os efeitos do poder sobre a morte e a vida.

Como analisar o sexo em si na construção da sexualidade como dispositivo de poder político sobre a vida? O sexo ganhou teoria e características próprias – correspondentes a normas e a saberes – transformou-se em referencial, parâmetro de classificação das condutas humanas. Como diz Foucault, “o sexo pôde, portanto, funcionar como significante único e significado universal” (fls. 146 do pdf). Ponto de referência na constituição de sujeitos. O desejo do sexo funciona assim como o grilhão que nos aprisiona ao dispositivo da sexualidade, que nos constitui como assujeitados ao biopoder. A biopotência, a resistência ou contra-ataque ao dispositivo da sexualidade, deve partir dos corpos e dos prazeres.

domingo, 10 de setembro de 2017

Inscrições abertas para Lyfebulb-Novo Nordisk Innovation Summit - prêmio para melhor ideia é de US$ 25 mil

Pelo segundo ano consecutivo, a Novo Nordisk e a Lyfebulb apoiarão empreendedores pacientes que desenvolverem ideias inovadoras visando fortalecer e impactar positivamente a vida das pessoas que vivem com diabetes tipo 1 ou tipo 2 e, consequentemente, as comunidades às quais elas pertencem.

O Lyfebulb-Novo Nordisk Innovation Summit foi criado a partir do Lyfebulb Entrepreneur Circle, plataforma educativa e inspiradora voltada àqueles que vivem com doenças crônicas e que preconiza, dentre outras coisas, que empreendedores pacientes têm uma habilidade única de criar intervenções com um valor agregado singular, que vai além da terapia tradicional. O encontro deste ano reunirá empreendedores pacientes, fundadores da Lyfebulb, liderança da Novo Nordisk, pesquisadores, engenheiros e investidores para facilitar a discussão sobre como é possível melhorar a vida das pessoas que vivem com diabetes.

De acordo com o Vice-Presidente Sênior Global de Pesquisa & Desenvolvimento de Dispositivos da Novo Nordisk, Kenneth Strømdahl, "a crescente prevalência de diabetes torna a necessidade de inovação no tratamento do diabetes mais relevante do que nunca. Encorajando empreendedores pacientes, esperamos promover avanços significativos e incentivar projetos inovadores que sejam capazes de beneficiar a vida de milhões de pessoas". A médica Karin Hehenberger, CEO e fundadora da Lyfebulb, afirma: "Estamos ansiosos para trabalhar novamente com a Novo Nordisk, capacitando as pessoas que vivem com diabetes, encorajando-as a assumir o controle e a melhorar a qualidade de suas vidas".

Os projetos inscritos serão avaliados por um painel de jurados composto por representantes de organizações internacionais. Na edição deste ano, o evento contará com uma jurada brasileira: a jornalista Vanessa Pirolo, diagnosticada com diabetes em 2000 e, desde então, militante da causa – atualmente, ela coordena diversos projetos de comunicação voltados à educação sobre o diabetes na ADJ - Diabetes Brasil. De acordo com Vanessa, o convite surgiu por meio de um desses projetos. “Por meio do programa de Advocacy da ADJ, fui escolhida para participar do programa DEEPs - Disease Experience Expert Panels, que tem como propósito unir variados públicos para discutir tecnologias e projetos que promovam a qualidade de vida do paciente, entre eles o Lyfebulb - Novo Nordisk Innovation Summit”.

Para Vanessa, pessoas com diabetes têm uma visão mais sensível e conhecem a fundo as reais necessidades de quem necessita conviver com a doença, tendo um alto potencial para criar soluções inovadoras com foco em qualidade de vida. “Quanto mais acesso a tecnologias inovadoras, mais facilidade os pacientes terão para aderir ao tratamento e, assim, ter uma vida mais plena e sem complicações”, destaca.


Inscrições estão abertas e prêmio pode chegar a 25 mil dólares

O Lyfebulb-Novo Nordisk Innovation Summit reunirá 10 empreendedores pacientes para apresentar suas ideias a investidores, pesquisadores, engenheiros, líderes de P&D da Novo Nordisk e fundadores da Lyfebulb em Copenhague, Dinamarca. Os três empreendedores com as ideias mais inovadoras receberão incentivos financeiros para desenvolver seus projetos – US$ 25 mil, US$ 15 mil e US$ 10 mil para o primeiro, segundo e terceiro lugares, respectivamente.

"O avanço no cuidado do diabetes inclui apoiar empresas jovens e novas ideias", afirma Karin Hehenberger. "Como organização, a Lyfebulb acredita que o futuro do diabetes está nas mãos do paciente, e é por isso que estamos certos de que o empoderamento dos empreendedores pacientes assegurará que ideias inovadoras e efetivas sejam trazidas para o mercado", concluiu.

Interessados de todo o mundo em participar do Lyfebulb-Novo Nordisk Innovation Summit 2017 devem se inscrever no site http://lyfebulb.com/innovation-award/novo-nordisk-2017/* até 15 de setembro de 2017. Os 10 finalistas viajarão em novembro para Copenhague, Dinamarca, onde apresentarão seus projetos para os avaliadores.

*Todos os projetos devem ser submetidos em inglês.


terça-feira, 22 de agosto de 2017

Tuitaço hoje, 22/08, em prol da disponibilização dos análogos de insulina no SUS

Em 22.02.2017 a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde (MS) determinou a incorporação dos análogos de ação rápida ao SUS para tratamento de pessoas com diabetes tipo 1. 

De acordo com a Lei nº 12.401/2011 e o Decreto nº 7.646/2011, os análogos deveriam estar disponíveis nas UBS's a partir de amanhã 23/08/17, mas até o momento nenhuma providência foi tomada para que isso efetivamente acontecesse: não temos notícias sobre negociação de preços entre MS e fabricantes de análogos de insulina de ação rápida (Eli Lilly, Novo Nordisk, e Sanofi Aventis), o protocolo especificando as condições da oferta da terapia no SUS (beneficiários, forma de dispensação, etc) não foi elaborado, e os análogos de ação rápida não constam da lista RENAME 2017 (saiba mais aqui: http://diabetesedemocracia.blogspot.com.br/2017/08/analogos-de-insulina-de-acao-rapida.html).

Por esta razão, profissionais, ativistas e blogueiros de diabetes estamos convocando todos os interessados a participar de um tuitaço hoje, dia 22/08/17, durante todo o dia, para cobrar respostas do Ministério da Saúde acerca da efetivação de um direito reconhecido na Portaria nº 10/2017 da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, mas completamente ignorado na prática.

Então, vamos todos participar da mobilização e tuitar ao @minsaude, usando a tag #analogosjá:

@minsaude Queremos notícias sobre a negociação de preços dos análogos de insulina #analogosjá

@minsaude Queremos o PCDT de análogos de insulina para todas as pessoas com DM1 #analogosjá

@minsaude Queremos a inclusão dos análogos de ação rápida na RENAME 2017 #analogosjá

@minsaude Cadê os análogos de insulina das pessoas com diabetes tipo 1? #analogosjá



domingo, 6 de agosto de 2017

Análogos de insulina de ação rápida para DM1 no SUS: prazo do MS termina dia 22/08

Em 13.06.2016 a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) apresentou à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias ao SUS (CONITEC) pedido de incorporação dos análogos de insulina de ação rápida (lispro, asparte e glulisina) para tratamento de pessoas com diabetes tipo 1. Em 13.09.16 a CONITEC abriu Consulta Pública para a sociedade opinar sobre o assunto, recomendando inicialmente a não incorporação (relatórios iniciais acessíveis nos seguintes links: http://conitec.gov.br/images/Consultas/Relatorios/2016/Sociedade/RelatorioSociedade-InsulinasRapidas_DM1.pdf e http://conitec.gov.br/images/Consultas/Relatorios/2016/InsulinasCP25_2016.pdf).

Entre os dias 13.09 e 03.10.16 foram colhidas 1.092 contribuições (118 técnico-científicas e 974 de profissionais de saúde, pacientes, familiares, amigos e cuidadores de pessoas com diabetes), na sua grande maioria favoráveis ao fornecimento dos análogos de ação rápida pelo SUS às pessoas com diabetes tipo 1 (houve apenas uma opinião contrária e uma parcialmente favorável), provocando a mudança do parecer inicial (relatórios de recomendação final da CONITEC acessíveis nos seguintes links: http://conitec.gov.br/images/Relatorios/2017/Sociedade/ReSoc29_INSULINAS_RAPIDAS_diabetes_tipo1_DECISAO_FINAL.pdf e http://conitec.gov.br/images/Relatorios/2017/Relatorio_Insulinas_DiabetesTipo1_final.pdf). 

Em 22.02.2017 foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) a Portaria nº 10/2017 da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, acatando a recomendação da CONITEC de incorporação dos análogos de ação rápida ao SUS para tratamento de pessoas com diabetes tipo 1, mediante negociação de preço e conforme protocolo que seria estabelecido pelo Ministério da Saúde.

 Notícia da incorporação dos análogos de insulina de ação rápida para DM1 no site da CONITEC:

 

De acordo com a Lei nº 12.401/2011 e o Decreto nº 7.646/2011 (artigo 25), que regulamentam o funcionamento da CONITEC  e o processo de incorporação de tecnologias ao SUS, a partir da publicação da decisão no DOU, o Ministério da Saúde tem um prazo de 180 dias para para disponibilizar no SUS a tecnologia incorporada. Ainda, conforme o Decreto nº 7.508/2011 (artigos 25 a 29), o fármaco incorporado deverá ser incluído na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) para a sua prescrição e dispensação na rede pública de saúde.

Mas quase 180 dias após a publicação da decisão de incorporação dos análogos de insulina de ação rápida ao SUS para tratamento de pessoas com diabetes tipo 1, nenhuma dessas providências foi levada a cabo pelo Ministério da Saúde: não temos notícias sobre a negociação de preços com as fabricantes dos análogos de ação rápida, não houve formulação e publicação de Protocolo Clínico e Diretriz Terapêutica (PCDT) estabelecendo o direito de acesso às insulinas análogas para todas as pessoas com diabetes tipo 1, e na proposta de atualização da RENAME de 2017 não constam os análogos de insulina de ação rápida.

Por essa razão, a Associação de Diabetes Juvenil (ADJ) está promovendo uma mobilização para cobrar as providências necessárias à disponibilização dos análogos de insulina de ação rápida para todos os usuários do SUS portadores de diabetes tipo 1. Vamos então todos nos unir e acionar o Ministério da Saúde pelas redes sociais (facebook: https://www.facebook.com/minsaude/ e twitter: @minsaude) e pedir: 1) notícias sobre a negociação de preços com as fabricantes dos análogos de ação rápida; 2) a elaboração do PCDT de análogos de insulina para todas as pessoas com DM1; e 3) inclusão dos análogos de ação rápida na RENAME 2017. Só assim conseguiremos o acesso aos análogos de insulina de ação rápida pelo SUS para todas as pessoas com diabetes tipo 1 no Brasil.


Sugestões de tweets:

@minsaude Queremos notícias sobre a negociação de preços dos análogos de insulina de ação rápida p/ #diabetes tipo 1 pelo SUS
@minsaude Queremos o PCDT de análogos de insulina para todas as pessoas com #diabetes tipo 1
@minsaude Queremos a inclusão dos análogos de ação rápida na RENAME 2017

quarta-feira, 19 de julho de 2017

CNS publica relatório da 1ª Conferência Nacional Livre de Comunicação em Saúde

A 1ª Conferência Nacional Livre de Comunicação em Saúde (1ªCNLCS) foi aprovada, no dia 27 de janeiro de 2017, pelo Plenário do Conselho Nacional de Saúde (CNS) durante sua 289ª Reunião Ordinária, por meio da Resolução Nº 540/2017 e realizada entre os dias 18 e 20 de abril do mesmo ano com o objetivo central de “Discutir a democratização do acesso da população às informações sobre saúde”, nas dependências do Centro Internacional de Convenções do Brasil – CICB na cidade de Brasília-DF. O evento reuniu 489 participantes, entre usuários, trabalhadores, gestores e pesquisadores da saúde, comunicadores, conselheiros de saúde, e ativistas.

Confira a síntese dos debates, propostas e encaminhamentos deste potente encontro no Relatório Final publicado pelo Conselho Nacional de Saúde, acessível no seguinte link: 


sábado, 8 de julho de 2017

22º Congresso de Diabetes da ANAD - de 27 a 30 de julho





A Associação Nacional de Atenção ao Diabetes (ANAD) realiza o 22º Congresso Brasileiro Multidisciplinar em Diabetes entre os dias 27 e 30 de julho de 2017, das 08h às 18h, na Universidade Paulista (UNIP) Vergueiro, localizada na Rua Vergueiro, 1.211 – Paraíso – São Paulo. 

O encontro tem por objetivo promover atualização e reciclagem dos profissionais da saúde, além de oferecer capacitação para um melhor desempenho das atividades profissionais que envolvem o atendimento às pessoas com diabetes. 

O Congresso ocorre tradicionalmente no mês de julho e se encontra em sua 22ª Edição, reunindo um público de aproximadamente 3.000 profissionais da área da saúde - médicos (endocrinologistas, clínicos, cardiologistas, nefrologistas), dentistas, biomédicos, farmacêuticos, nutricionistas, biólogos, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, fisioterapeutas, profissionais de educação física, gestores da saúde pública, entre outros. 

Ao todo serão 36 simpósios e 200 palestras e debates, com ampla abordagem e discussão de temas atuais em saúde da pessoa com diabetes, além de simpósios satélite com foco na prática diária. O Congresso também apresenta oficinas de diversas especialidades, além de cursos profissionalizantes.

Ressalto a importância da inclusão de um simpósio sobre políticas públicas de atenção à saúde das pessoas com diabetes, com destaque para as participações de Karla Melo (endocrinologista membro da Sociedade Brasileira de Diabetes) abordando a incorporação dos análogos de insulina ao SUS, e de Marília Louvison (médica professora da Faculdade de Saúde Pública da USP e diretora da Associação Paulista de Saúde Pública) numa mesa sobre a judicialização da saúde, da qual terei a honra de também participar apresentando o ponto de vista dos usuários/pacientes sobre o assunto. 

Saiba mais informações no site do 22º Congresso Brasileiro Multidisciplinar em Diabetes: www.anad.org.br/congresso

Confira a programação completa dos simpósios neste link: http://www.anad.org.br/wp-content/uploads/2017/06/22-Programação-Cientifica.pdf







sexta-feira, 30 de junho de 2017

Reflexões biopolíticas - Rotas de fuga dos pacientes (des)controlados

O QUE REVELAM AS NARRATIVAS DOS USUÁRIOS DA SAÚDE NA INTERNET SOBRE OS DISPOSITIVOS DE CONTROLE DA SOCIEDADE?

Car@s Amig@s da blogosfera.

Compartilho aqui com vocês algumas reflexões transpostas para o trabalho final da disciplina de "Biopolítica e micropolítica na produção de modelos tecnoassistenciais", da pós-graduação da Faculdade de Saúde Pública da USP, sob coordenação da Profª. Laura Camargo Macruz Feuerwerker.

Na verdade, este é um convite para a continuação e ampliação do diálogo na rede, através de novos comentários e reflexões que venham se somar a essas que publico agora.

Que tipo de relações construímos quando apenas os saberes técnicos são considerados legítimos e representantes da história da saúde (ou seria das doenças), em detrimento das histórias de vida das pessoas? Que sujeitos são produzidos com a valorização das regularidades, sem abertura de espaço aos riscos, às diferenças e às singularidades?


Tradução livre: Diabéticos - as únicas pessoas que tomam pico para não ficarem altas


O advento da internet na virada do milênio trouxe novas possibilidades de interações sociais nos âmbitos público e privado. Atualmente há inúmeras redes sociais onde as pessoas podem compartilhar suas experiências e manifestar sua forma de pensar a vida e o mundo. Mesmo antes disso, os blogs já se constituíam como um espaço de propagação de qualquer voz, um lugar de fala para qualquer pessoa interessada em publicar textos na internet, sem limites temáticos para o debate. Um dos assuntos debatidos nesses blogs, e a partir da última década também nas redes sociais, é a saúde, tanto sob o ponto de vista dos profissionais, gestores e pesquisadores, como dos usuários dos serviços (públicos e privados) de saúde. Uma abertura importante para pacientes que, tendo voz, nem sempre encontram espaços para propagá-la, tendo em vista sua posição desprivilegiada na relação de poder com os profissionais de saúde. Um campo onde se batalha pelo reconhecimento das experiências práticas com o processo saúde/doença como conhecimentos válidos, e essenciais à conquista da autonomia na condução da vida da pessoa.

A internet é também um espaço de realização de atividades de controle social por blogueiros e ciberativistas em saúde, seja para cobrar o cumprimento de programas de saúde pela administração pública, seja para contribuir para a tomada de decisões políticas. O SUS tem por uma de suas diretrizes a participação da comunidade na construção das políticas públicas de saúde (artigo 198, III, da Constituição Federal). Pensando a participação social para além das instâncias representativas dos Conselhos de Saúde, o ciberespaço se oferece como ambiente de contribuição irrestrita no debate político. Mas em que condições esses relatos dos usuários se constituem efetivamente em ferramentas da participação social direta no SUS? De que forma esses atores da saúde disputam seu lugar na construção da política pública de saúde? Eles exercem de fato alguma influência sobre a criação de direitos na área de saúde? Essas foram as perguntas iniciais disparadoras do projeto de pesquisa de mestrado sobre as narrativas dos usuários da saúde na internet pensadas como ferramentas de participação social, através do exercício direto do poder popular (artigo 1º, §1º, CF), gestadas no curso das disciplinas “Regulação e Regionalização das Redes de Atenção à Saúde” e “Política e Gestão em Saúde”.

Mas essas questões inciais, centradas na macropolítica de saúde, não abordam as relações micropolíticas constituintes da produção das narrativas dos usuários, e que foram paulatinamente se descortinando durante a disciplina “Biopolítica e Micropolítica na Produção dos Modelos Tecnoassistenciais”. Assim, àquelas perguntas se somaram outras: o que é saúde para os pacientes, e quais são as referências (ou influências) das concepções encontradas? O que entendem por participação social e se exercem essa atividade de forma consciente, ou seja, sabem que são atores da participação social no SUS? Que dispositivos de poder da sociedade de controle revelam as narrativas dos usuários na internet? Os relatos indicam possíveis rotas de fuga e invenções de novos modos de existência para além do modelo proposto pela sociedade de controle? Que sujeitos e que tipo de atores da participação social estão (se) produzindo nesses textos?

A produção de narrativas é instituidora de saberes, conformadores da verdade a partir da eleição de versões e fontes oficiais da história. Desta forma, o conhecimento em saúde está correlacionado a um processo de construção técnica alheia à participação dos pacientes. O registro e debate das experiências práticas dos usuários na internet podem então representar uma abertura de espaço para os “saberes das pessoas”, ou saber histórico das lutas, na definição de Foucault1. Participar da construção do saber em saúde como protagonistas/autores, e não como corpos sobre os quais a ciência atua, constitui uma vantagem essencial aos usuários dos serviços de saúde na produção de novas visibilidades, assim como de novas verdades a partir de suas histórias de vida.

O conhecimento em saúde também se correlaciona à produção de sujeitos. Os usuários, profissionais e gestores da saúde não são, mas se constroem, somos todos produtos sociais, sujeitos em constante transformação pelas práticas sociais, principalmente pelas práticas de controle e vigilância da sociedade. Da disputa de sentidos sobre saúde resulta um discurso produtor de mudanças de sentido da própria vida do sujeito. De que forma os sujeitos são produzidos a partir dessas concepções de saúde e de conhecimento em saúde?

A adesão a um projeto terapêutico padronizado para portadores de doenças crônicas pode ser analisada como um dispositivo de controle que, desconsiderando condições, possibilidades, desejos e convicções de cada pessoa, produz sujeitos com pouca autonomia na condução de seu modo de viver. Outro exemplo seria o constante desabastecimento nos serviços de assistência farmacêutica do SUS, que concentra a atuação do controle social no acesso a insumos e medicamentos, revelando-se como um possível dispositivo de medicalização da existência, já que os outros aspectos das políticas de atenção à saúde ficam relegados a segundo ou nenhum plano de debate pelos usuários pacientes.

O que dizem as narrativas dos usuários da saúde a esse respeito? Mudar de lugar nessa questão, transformando aderentes medicalizados em construtores de seu próprio cuidado e do sentido sobre saúde, favorece a produção de outras possibilidades, através do questionamento de tudo que nos submete, nos aprisiona, nos posiciona na vida. É possível fabricar outro mundo dentro desse mundo? Pensar na construção de soluções compartilhadas através de relações não hierárquicas, concedendo espaço a diversas possibilidades de existências no lugar de aprisionar as pessoas em suas doenças, quando os corpos e mentes padecem por “irregularidades”?

O poder disciplinar não se restringe à medicina e às instituições de saúde, e é exercido através de todas as formas de poder, pressupondo a submissão de pessoas (dos corpos) não individualizadas a uma certa ordem vigente e ditada por alguém ou por alguma instituição. Ele se perpetua dentro de um sistema disciplinar que, segundo Foucault2, “tende a ser uma ocupação do tempo, da vida e do corpo do indivíduo”. As redes sociais podem ser também analisadas enquanto ferramentas do sistema disciplinar, ou ainda como sistemas panópticos de vigilância: os cidadãos disciplinados/sujeitados informam regularmente suas atividades diárias, como forma de atestar sua existência (nas redes sociais e na própria vida). A ideia é viver em constante atividade de produção e de consumo de informações, pois é através delas que o sistema disciplinar intervém.

Os “resíduos” dessa intervenção são considerados como anormalidades. Aqueles que não se enquadram ao modelo de normalidade, perdem a característica de sujeitos ou são menos sujeitos, enquanto os normais são sujeitados. Seriam então as anormalidades uma forma de resistência ao poder disciplinar? A partir desse entendimento, como exemplo, uma pessoa com diabetes “descontrolada” (não sujeitada a regras padronizadas e padronizantes, mas atuante na construção de seu cuidado) teria maiores chances de descobrir outras possibilidades, um modo de conduzir a vida conforme suas condições, possibilidades, desejos e convicções. Aqui vemos, inclusive, um outro sentido para o termo “descontrole”, desnaturalizando o controle exercido não apenas em relação à glicemia de pessoas com diabetes, mas também à forma de gestão da vida dos portadores de doenças crônicas.

E como aproveitar as redes sociais e demais espaços abertos da internet em favor da produção dessas novas possibilidades de vida e de novos sujeitos? As trocas entre diferentes experiências singulares de pacientes – e também de profissionais, gestores e pesquisadores com os usuários – seriam uma forma de produzir resistências ao controle das instituições sobre seus corpos e suas vidas? É possível um outro jeito de encontrar o mundo e com outras pessoas na transformação da gestão da vida?

Essas foram as contribuições trazidas ao projeto de pesquisa pelo curso da disciplina “Biopolítica e Micropolítica na Produção dos Modelos Tecnoassistenciais”. Acredita-se que, depois de um ano e meio de estudos e trocas com os colegas da pós-graduação, as condições para o início dessa jornada em busca das rotas de fuga dos usuários da saúde não sujeitados, ou menos sujeitados – sem perder de vista que a cada “escapada” corresponde um prévio
aprisionamento ou nova captura  – no exercício da participação social em saúde, se fazem presentes. A proponente está ansiosa para descobrir as “rebeldias” construtoras de saúde que se revelarão ao longo desse caminho!

 
Referências

1. Foucault M. Em Defesa da Sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2005

2. Foucault M. O Poder Psiquiátrico. São Paulo: Martins Fontes, 2006
 

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Participe da consulta pública para atualização da Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde - até 11/06/17

Em 18 de abril de 2017, durante a abertura da 1ª Conferência Nacional Livre de Comunicação em Saúde, o Conselho Nacional de Saúde (CNS) lançou uma consulta à sociedade para a revisão e atualização da Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde. A proposta é que o resultado final da consulta pública seja apresentado em agosto de 2017.

A Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde, elaborada pelo Ministério da Saúde, Conselho Nacional de Saúde (CNS) e Comissão Intergestores Tripartite, foi apresentada à sociedade no dia 30 de março de 2006 por meio da Portaria GM/MS 645, convidando todos os gestores, profissionais de saúde, organizações civis, instituições e pessoas interessadas em “promover o respeito desses direitos e a assegurar seu reconhecimento efetivo e sua aplicação”.

Em sua 198ª Reunião Ordinária (junho/2009), o CNS aprovou os sete princípios da Carta de Direitos e Deveres em Saúde e em 13 de agosto de 2009 foi publicada a Portaria GM/MS 1820, que dispõe sobre os direitos e deveres dos usuários da saúde.

“A carta é um instrumento importante de diálogo com a sociedade, para conclamá-la ao exercício da cidadania e de seus direitos”, disse Ronald sobre o documento que enumera os direitos dos cidadãos em relação às ações e serviços do Sistema Único de Saúde (SUS). A última atualização da carta é de 2011. “Ocorre que há transformações importantes no Brasil que exigem o reforço, o destaque, uma atualização da carta”, destacou o presidente do CNS.

A consulta à sociedade vai de 2 de maio a 11 de junho. “Nossa ideia é que em cinco de agosto, quando no Brasil se comemora o Dia Nacional da Saúde, a gente possa apresentar a atualização da carta que tem de, necessariamente, na atual conjuntura, deixar bem claro para o povo brasileiro todos os direitos que ele tem em relação à saúde”, afirmou o presidente do CNS.

Para participar e contribuir com a consulta pública é muito simples: basta acessar o link do formulário (http://formsus.datasus.gov.br/site/formulario.php?id_aplicacao=31621) e redigir as sugestões de inclusão, exclusão ou modificação de texto em cada artigo da carta. Os campos para as sugestões estão separados por artigo, o que facilita bastante a contribuição.

Essa é uma oportunidade muito importante para exercemos o direito à participação social nos destinos da saúde no Brasil de forma colaborativa e para construirmos juntos as normas que regulam e garantem o nosso direito à saúde e suas formas de acesso.


Aberta consulta para atualização da Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde



terça-feira, 28 de março de 2017

Reflexões biopolíticas - O conhecimento e o exercício de poder sobre os corpos (ou Como produzir novas verdades a partir das nossas experiências de vida?)

Car@s Amig@s da blogosfera. 

Compartilho aqui com vocês algumas reflexões a partir da leitura do primeiro texto do livro “Em defesa da sociedade” (aula de 07 de janeiro de 1976 de Michel Foucault no Collège de France), e também as anotações feitas durante o debate com os demais colegas da disciplina de "Biopolítica e micropolítica na produção de modelos tecnoassistenciais", da pós-graduação da Faculdade de Saúde Pública da USP, sob coordenação da Profª. Laura Camargo Macruz Feuerwerker.

Na verdade, este é um convite para a continuação e ampliação do diálogo na rede, através de novos comentários e reflexões que venham se somar a esses que publico agora. 

E começo questionando: onde estão as frestas da produção crítica do conhecimento sobre saúde? Como garantir espaços de disputa de sentidos sobre saúde sem tender à "pacificação" das ideias e à regularização dos modos de vida? 

foto das anotações do debate da aula inaugural, 
imagem que será retomada ao final da disciplina


Foucault – Em defesa da Sociedade – Aula de 07.01.76

No primeiro texto/aula do livro “Em defesa da sociedade”, que reúne o conteúdo desenvolvido por Michel Foucault no Collège de France entre os meses de janeiro a março de 1976 na disciplina de “Histórias dos sistemas de pensamento”, nos deparamos já no início com uma espécie de aviso do autor: estamos aqui para pensar. Mas Foucault deixa escapar uma observação sobre a existência de uma associação entre o que é ensinado e o que se paga para ser ensinado. Seria essa uma tentativa de, mais do que ressaltar a indissociabilidade da educação do sistema político-econômico em que se insere, chamar a atenção para uma certa instrumentalidade ou intencionalidade do campo do desenvolvimento dos saberes, para tentar superar ou ampliar o pensamento para além desses limites?

Foucault parte de uma análise das modificações no modelo de suas aulas como providência necessária à realização de trocas entre professor e alunos e alunas, tendo por foco o desenvolvimento de pesquisas mais objetivas, identificando as ferramentas de produção do saber científico, entre elas a produção de narrativas como instituidoras desse saber. E também como essa produção de saberes está muito mais associada a verdades como convenções do que propriamente a questionamentos filosófico-científicos.

Em seguida Foucalut identifica as frestas de produção crítica do conhecimento dessas narrativas filosóficas a partir de algumas características: localidade/particularidade (em contraposição à aplicação geral) dos questionamentos; percepção de saberes sujeitados a eleição de versões e fontes oficiais da história com a abertura de espaço para os “saberes das pessoas”, que chamou de saber histórico das lutas. É no acoplamento entre as correntes eruditas não oficiais da filosofia e os saberes das pessoas que se localiza a genealogia do saber histórico das lutas.

A disputa então não seria em torno da verdade, mas do poder de dizer a verdade (quem e a partir de quais conhecimentos), em que teorias científicas universais se revelariam como uma espécie de autoritarismo científico, objetivando o poder como vantagem essencial ao estabelecimento de relações entre forças desiguais, relações de submissão.

Foucault passa então a analisar a pertinência do questionamento sobre a natureza do poder, propondo a correspondência das concepções liberal-jurídica e  marxista de poder a uma ideia economicista da teoria do poder. No direito o poder seria identificado como qualidade inerente à propriedade, uma operação jurídica de troca contratual, e no marxismo o poder equivaleria ao domínio dos meios de produção e da força de trabalho como forma de fazer prevalecer o domínio de classe. No primeiro se encontraria o modelo formal do poder político, e no segundo sua razão de ser histórica e o princípio de sua forma concreta e de seu funcionamento.

Embora reconheça essa funcionalidade econômica do poder, Foucault busca outra abordagem para além do que chama de economismo, questionando o poder a partir de como ele é exercido sobre a vida das pessoas, nos corpos. Foucault localiza na repressão e na disputa de forças (guerra) a essência do poder para além do economismo. O poder assim considerado seria uma forma de repressão (hipótese de Reich), de acomodação das disputas sociais (hipótese de Nietzsche).


Debate em aula:

A ciência não é neutra e é atravessada por outros interesses, essa é uma discussão atual.

Quais são mesmo as relações entre poder e economia? Foucault questiona a lógica de subordinação das relações de poder aos objetivos econômicos.

Há uma intencionalidade na prevalência de uma ideia sobre outra? Ou permanecem aquelas que emplacam? A volta a determinados filósofos não ocorre através de um comando central, mas através da dinâmica de forças da sociedade que vão operando ao longo do tempo. Quando fala dos saberes sujeitados, Foucault não aplica o termo intencionalidade, mas fala em “objetivo”.

As décadas de 60 e 70 representaram um movimento de questionamento de tudo, de vários aspectos e de vários modos. Mesmo que rechaçados num primeiro momento, os conhecimentos produzidos podem depois ser recapturados. Foucault questiona justamente como o poder opera nessa produção de conhecimento, como essa máquina de guerra vai questionar e produzir outras ordens. Tem uma certa construção de valores afirmativos sobre soberania, legitimidade, o contrato social….como é que monta esse negócio?

O poder tem a incumbência (legitimidade?) para defender a sociedade?

É necessário localizar o texto em seu contexto político de produção. Nos anos 60 e 70 o mundo estava dividido pela guerra fria, é sob essa perspectiva que os questionamentos são feitos.

O texto é um exercício interessante de problematização. Quando fazemos uma pesquisa, praticamente já sabemos a resposta. Foucault vai em busca de novos problemas pensando se os saberes a serem produzidos serão capturados ou não, como operarão. Foucault pretende produzir novas visibilidades.

O conhecimento é uma arma para destruir verdades, uma forma de resistência, e que está intimamente relacionado ao poder. “A política é a guerra continuada por outros meios”.

Poder não é só repressão, mas produção. São diferentes linhas de força operando nessa produção ativa, há invenções também, o poder produz possibilidades e por isso se sustenta. Há efeitos, apropriações e produções, não há uma ideologia que cega as pessoas.

Existe um certo regime de verdade, onde estão inseridos profissionais de saúde e usuários.

A vida em produção fabrica corpos, enquanto a medicina estuda regularidades. Pensar em como a vida está se produzindo para se manter, conforme as ideias de Foucault nesse texto, talvez seja mais importante do que estudar e buscar as regularidades.

O poder do discurso também atua de maneira muito forte, mas não é apenas o saber científico que orienta as práticas. A explicação geral que reduz tudo é insuficiente para abrir o combate.

Um jeito interessante de interrogar é pensar a partir dos efeitos. A construção de políticas públicas de saúde com a participação da comunidade é uma diretriz do SUS criada a partir da experiência das lutas da reforma sanitária. Na prática, há muitas dificuldades nessa participação social. Mas, ao invés de responsabilizar gestores ou usuários por não colocar em prática de forma adequada o instituto, seria mais interessante questionarmos os pressupostos do controle social pensando em seus efeitos. O que isso produz? Faz sentido pensar numa participação apenas nos grandes espaços mas que não participa da produção quotidiana da vida?

Os espaços institucionais acomodam a “oficialidade”, mas não abrigam as disputas existentes. Como escapar do institucional?

Os usuários são convidados a participar de reuniões dos profissionais e dos gestores, mas não são considerados como pessoas com uma vida que se desenvolve em outros espaços que não sejam os serviços de saúde, produzindo outras possibilidades. Considerar a vida que acontece para fora dos serviços de saúde é pensar outras formas de produção de saúde e de vida.

Saúde se produz como valor. Questionar a saúde não é deixar de se importar com a vida das pessoas, é pensar em outras possibilidades de produção de saúde.

Esse texto é um convite ao desconforto, ao questionamento constante, à percepção das modificações em constante emergência.

Foucault não acredita em relações que não envolvam a disputa de forças e o poder, o poder atravessa todas as relações sociais.

Como produzimos novas verdades a partir das nossas experiências de vida?