domingo, 6 de agosto de 2017

Análogos de insulina de ação rápida para DM1 no SUS: prazo do MS termina dia 22/08

Em 13.06.2016 a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) apresentou à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias ao SUS (CONITEC) pedido de incorporação dos análogos de insulina de ação rápida (lispro, asparte e glulisina) para tratamento de pessoas com diabetes tipo 1. Em 13.09.16 a CONITEC abriu Consulta Pública para a sociedade opinar sobre o assunto, recomendando inicialmente a não incorporação (relatórios iniciais acessíveis nos seguintes links: http://conitec.gov.br/images/Consultas/Relatorios/2016/Sociedade/RelatorioSociedade-InsulinasRapidas_DM1.pdf e http://conitec.gov.br/images/Consultas/Relatorios/2016/InsulinasCP25_2016.pdf).

Entre os dias 13.09 e 03.10.16 foram colhidas 1.092 contribuições (118 técnico-científicas e 974 de profissionais de saúde, pacientes, familiares, amigos e cuidadores de pessoas com diabetes), na sua grande maioria favoráveis ao fornecimento dos análogos de ação rápida pelo SUS às pessoas com diabetes tipo 1 (houve apenas uma opinião contrária e uma parcialmente favorável), provocando a mudança do parecer inicial (relatórios de recomendação final da CONITEC acessíveis nos seguintes links: http://conitec.gov.br/images/Relatorios/2017/Sociedade/ReSoc29_INSULINAS_RAPIDAS_diabetes_tipo1_DECISAO_FINAL.pdf e http://conitec.gov.br/images/Relatorios/2017/Relatorio_Insulinas_DiabetesTipo1_final.pdf). 

Em 22.02.2017 foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) a Portaria nº 10/2017 da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, acatando a recomendação da CONITEC de incorporação dos análogos de ação rápida ao SUS para tratamento de pessoas com diabetes tipo 1, mediante negociação de preço e conforme protocolo que seria estabelecido pelo Ministério da Saúde.

 Notícia da incorporação dos análogos de insulina de ação rápida para DM1 no site da CONITEC:

 

De acordo com a Lei nº 12.401/2011 e o Decreto nº 7.646/2011 (artigo 25), que regulamentam o funcionamento da CONITEC  e o processo de incorporação de tecnologias ao SUS, a partir da publicação da decisão no DOU, o Ministério da Saúde tem um prazo de 180 dias para para disponibilizar no SUS a tecnologia incorporada. Ainda, conforme o Decreto nº 7.508/2011 (artigos 25 a 29), o fármaco incorporado deverá ser incluído na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) para a sua prescrição e dispensação na rede pública de saúde.

Mas quase 180 dias após a publicação da decisão de incorporação dos análogos de insulina de ação rápida ao SUS para tratamento de pessoas com diabetes tipo 1, nenhuma dessas providências foi levada a cabo pelo Ministério da Saúde: não temos notícias sobre a negociação de preços com as fabricantes dos análogos de ação rápida, não houve formulação e publicação de Protocolo Clínico e Diretriz Terapêutica (PCDT) estabelecendo o direito de acesso às insulinas análogas para todas as pessoas com diabetes tipo 1, e na proposta de atualização da RENAME de 2017 não constam os análogos de insulina de ação rápida.

Por essa razão, a Associação de Diabetes Juvenil (ADJ) está promovendo uma mobilização para cobrar as providências necessárias à disponibilização dos análogos de insulina de ação rápida para todos os usuários do SUS portadores de diabetes tipo 1. Vamos então todos nos unir e acionar o Ministério da Saúde pelas redes sociais (facebook: https://www.facebook.com/minsaude/ e twitter: @minsaude) e pedir: 1) notícias sobre a negociação de preços com as fabricantes dos análogos de ação rápida; 2) a elaboração do PCDT de análogos de insulina para todas as pessoas com DM1; e 3) inclusão dos análogos de ação rápida na RENAME 2017. Só assim conseguiremos o acesso aos análogos de insulina de ação rápida pelo SUS para todas as pessoas com diabetes tipo 1 no Brasil.


Sugestões de tweets:

@minsaude Queremos notícias sobre a negociação de preços dos análogos de insulina de ação rápida p/ #diabetes tipo 1 pelo SUS
@minsaude Queremos o PCDT de análogos de insulina para todas as pessoas com #diabetes tipo 1
@minsaude Queremos a inclusão dos análogos de ação rápida na RENAME 2017

quarta-feira, 19 de julho de 2017

CNS publica relatório da 1ª Conferência Nacional Livre de Comunicação em Saúde

A 1ª Conferência Nacional Livre de Comunicação em Saúde (1ªCNLCS) foi aprovada, no dia 27 de janeiro de 2017, pelo Plenário do Conselho Nacional de Saúde (CNS) durante sua 289ª Reunião Ordinária, por meio da Resolução Nº 540/2017 e realizada entre os dias 18 e 20 de abril do mesmo ano com o objetivo central de “Discutir a democratização do acesso da população às informações sobre saúde”, nas dependências do Centro Internacional de Convenções do Brasil – CICB na cidade de Brasília-DF. O evento reuniu 489 participantes, entre usuários, trabalhadores, gestores e pesquisadores da saúde, comunicadores, conselheiros de saúde, e ativistas.

Confira a síntese dos debates, propostas e encaminhamentos deste potente encontro no Relatório Final publicado pelo Conselho Nacional de Saúde, acessível no seguinte link: 


sábado, 8 de julho de 2017

22º Congresso de Diabetes da ANAD - de 27 a 30 de julho





A Associação Nacional de Atenção ao Diabetes (ANAD) realiza o 22º Congresso Brasileiro Multidisciplinar em Diabetes entre os dias 27 e 30 de julho de 2017, das 08h às 18h, na Universidade Paulista (UNIP) Vergueiro, localizada na Rua Vergueiro, 1.211 – Paraíso – São Paulo. 

O encontro tem por objetivo promover atualização e reciclagem dos profissionais da saúde, além de oferecer capacitação para um melhor desempenho das atividades profissionais que envolvem o atendimento às pessoas com diabetes. 

O Congresso ocorre tradicionalmente no mês de julho e se encontra em sua 22ª Edição, reunindo um público de aproximadamente 3.000 profissionais da área da saúde - médicos (endocrinologistas, clínicos, cardiologistas, nefrologistas), dentistas, biomédicos, farmacêuticos, nutricionistas, biólogos, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, fisioterapeutas, profissionais de educação física, gestores da saúde pública, entre outros. 

Ao todo serão 36 simpósios e 200 palestras e debates, com ampla abordagem e discussão de temas atuais em saúde da pessoa com diabetes, além de simpósios satélite com foco na prática diária. O Congresso também apresenta oficinas de diversas especialidades, além de cursos profissionalizantes.

Ressalto a importância da inclusão de um simpósio sobre políticas públicas de atenção à saúde das pessoas com diabetes, com destaque para as participações de Karla Melo (endocrinologista membro da Sociedade Brasileira de Diabetes) abordando a incorporação dos análogos de insulina ao SUS, e de Marília Louvison (médica professora da Faculdade de Saúde Pública da USP e diretora da Associação Paulista de Saúde Pública) numa mesa sobre a judicialização da saúde, da qual terei a honra de também participar apresentando o ponto de vista dos usuários/pacientes sobre o assunto. 

Saiba mais informações no site do 22º Congresso Brasileiro Multidisciplinar em Diabetes: www.anad.org.br/congresso

Confira a programação completa dos simpósios neste link: http://www.anad.org.br/wp-content/uploads/2017/06/22-Programação-Cientifica.pdf







sexta-feira, 30 de junho de 2017

Reflexões biopolíticas - Rotas de fuga dos pacientes (des)controlados

O QUE REVELAM AS NARRATIVAS DOS USUÁRIOS DA SAÚDE NA INTERNET SOBRE OS DISPOSITIVOS DE CONTROLE DA SOCIEDADE?

Car@s Amig@s da blogosfera.

Compartilho aqui com vocês algumas reflexões transpostas para o trabalho final da disciplina de "Biopolítica e micropolítica na produção de modelos tecnoassistenciais", da pós-graduação da Faculdade de Saúde Pública da USP, sob coordenação da Profª. Laura Camargo Macruz Feuerwerker.

Na verdade, este é um convite para a continuação e ampliação do diálogo na rede, através de novos comentários e reflexões que venham se somar a essas que publico agora.

Que tipo de relações construímos quando apenas os saberes técnicos são considerados legítimos e representantes da história da saúde (ou seria das doenças), em detrimento das histórias de vida das pessoas? Que sujeitos são produzidos com a valorização das regularidades, sem abertura de espaço aos riscos, às diferenças e às singularidades?


Tradução livre: Diabéticos - as únicas pessoas que tomam pico para não ficarem altas


O advento da internet na virada do milênio trouxe novas possibilidades de interações sociais nos âmbitos público e privado. Atualmente há inúmeras redes sociais onde as pessoas podem compartilhar suas experiências e manifestar sua forma de pensar a vida e o mundo. Mesmo antes disso, os blogs já se constituíam como um espaço de propagação de qualquer voz, um lugar de fala para qualquer pessoa interessada em publicar textos na internet, sem limites temáticos para o debate. Um dos assuntos debatidos nesses blogs, e a partir da última década também nas redes sociais, é a saúde, tanto sob o ponto de vista dos profissionais, gestores e pesquisadores, como dos usuários dos serviços (públicos e privados) de saúde. Uma abertura importante para pacientes que, tendo voz, nem sempre encontram espaços para propagá-la, tendo em vista sua posição desprivilegiada na relação de poder com os profissionais de saúde. Um campo onde se batalha pelo reconhecimento das experiências práticas com o processo saúde/doença como conhecimentos válidos, e essenciais à conquista da autonomia na condução da vida da pessoa.

A internet é também um espaço de realização de atividades de controle social por blogueiros e ciberativistas em saúde, seja para cobrar o cumprimento de programas de saúde pela administração pública, seja para contribuir para a tomada de decisões políticas. O SUS tem por uma de suas diretrizes a participação da comunidade na construção das políticas públicas de saúde (artigo 198, III, da Constituição Federal). Pensando a participação social para além das instâncias representativas dos Conselhos de Saúde, o ciberespaço se oferece como ambiente de contribuição irrestrita no debate político. Mas em que condições esses relatos dos usuários se constituem efetivamente em ferramentas da participação social direta no SUS? De que forma esses atores da saúde disputam seu lugar na construção da política pública de saúde? Eles exercem de fato alguma influência sobre a criação de direitos na área de saúde? Essas foram as perguntas iniciais disparadoras do projeto de pesquisa de mestrado sobre as narrativas dos usuários da saúde na internet pensadas como ferramentas de participação social, através do exercício direto do poder popular (artigo 1º, §1º, CF), gestadas no curso das disciplinas “Regulação e Regionalização das Redes de Atenção à Saúde” e “Política e Gestão em Saúde”.

Mas essas questões inciais, centradas na macropolítica de saúde, não abordam as relações micropolíticas constituintes da produção das narrativas dos usuários, e que foram paulatinamente se descortinando durante a disciplina “Biopolítica e Micropolítica na Produção dos Modelos Tecnoassistenciais”. Assim, àquelas perguntas se somaram outras: o que é saúde para os pacientes, e quais são as referências (ou influências) das concepções encontradas? O que entendem por participação social e se exercem essa atividade de forma consciente, ou seja, sabem que são atores da participação social no SUS? Que dispositivos de poder da sociedade de controle revelam as narrativas dos usuários na internet? Os relatos indicam possíveis rotas de fuga e invenções de novos modos de existência para além do modelo proposto pela sociedade de controle? Que sujeitos e que tipo de atores da participação social estão (se) produzindo nesses textos?

A produção de narrativas é instituidora de saberes, conformadores da verdade a partir da eleição de versões e fontes oficiais da história. Desta forma, o conhecimento em saúde está correlacionado a um processo de construção técnica alheia à participação dos pacientes. O registro e debate das experiências práticas dos usuários na internet podem então representar uma abertura de espaço para os “saberes das pessoas”, ou saber histórico das lutas, na definição de Foucault1. Participar da construção do saber em saúde como protagonistas/autores, e não como corpos sobre os quais a ciência atua, constitui uma vantagem essencial aos usuários dos serviços de saúde na produção de novas visibilidades, assim como de novas verdades a partir de suas histórias de vida.

O conhecimento em saúde também se correlaciona à produção de sujeitos. Os usuários, profissionais e gestores da saúde não são, mas se constroem, somos todos produtos sociais, sujeitos em constante transformação pelas práticas sociais, principalmente pelas práticas de controle e vigilância da sociedade. Da disputa de sentidos sobre saúde resulta um discurso produtor de mudanças de sentido da própria vida do sujeito. De que forma os sujeitos são produzidos a partir dessas concepções de saúde e de conhecimento em saúde?

A adesão a um projeto terapêutico padronizado para portadores de doenças crônicas pode ser analisada como um dispositivo de controle que, desconsiderando condições, possibilidades, desejos e convicções de cada pessoa, produz sujeitos com pouca autonomia na condução de seu modo de viver. Outro exemplo seria o constante desabastecimento nos serviços de assistência farmacêutica do SUS, que concentra a atuação do controle social no acesso a insumos e medicamentos, revelando-se como um possível dispositivo de medicalização da existência, já que os outros aspectos das políticas de atenção à saúde ficam relegados a segundo ou nenhum plano de debate pelos usuários pacientes.

O que dizem as narrativas dos usuários da saúde a esse respeito? Mudar de lugar nessa questão, transformando aderentes medicalizados em construtores de seu próprio cuidado e do sentido sobre saúde, favorece a produção de outras possibilidades, através do questionamento de tudo que nos submete, nos aprisiona, nos posiciona na vida. É possível fabricar outro mundo dentro desse mundo? Pensar na construção de soluções compartilhadas através de relações não hierárquicas, concedendo espaço a diversas possibilidades de existências no lugar de aprisionar as pessoas em suas doenças, quando os corpos e mentes padecem por “irregularidades”?

O poder disciplinar não se restringe à medicina e às instituições de saúde, e é exercido através de todas as formas de poder, pressupondo a submissão de pessoas (dos corpos) não individualizadas a uma certa ordem vigente e ditada por alguém ou por alguma instituição. Ele se perpetua dentro de um sistema disciplinar que, segundo Foucault2, “tende a ser uma ocupação do tempo, da vida e do corpo do indivíduo”. As redes sociais podem ser também analisadas enquanto ferramentas do sistema disciplinar, ou ainda como sistemas panópticos de vigilância: os cidadãos disciplinados/sujeitados informam regularmente suas atividades diárias, como forma de atestar sua existência (nas redes sociais e na própria vida). A ideia é viver em constante atividade de produção e de consumo de informações, pois é através delas que o sistema disciplinar intervém.

Os “resíduos” dessa intervenção são considerados como anormalidades. Aqueles que não se enquadram ao modelo de normalidade, perdem a característica de sujeitos ou são menos sujeitos, enquanto os normais são sujeitados. Seriam então as anormalidades uma forma de resistência ao poder disciplinar? A partir desse entendimento, como exemplo, uma pessoa com diabetes “descontrolada” (não sujeitada a regras padronizadas e padronizantes, mas atuante na construção de seu cuidado) teria maiores chances de descobrir outras possibilidades, um modo de conduzir a vida conforme suas condições, possibilidades, desejos e convicções. Aqui vemos, inclusive, um outro sentido para o termo “descontrole”, desnaturalizando o controle exercido não apenas em relação à glicemia de pessoas com diabetes, mas também à forma de gestão da vida dos portadores de doenças crônicas.

E como aproveitar as redes sociais e demais espaços abertos da internet em favor da produção dessas novas possibilidades de vida e de novos sujeitos? As trocas entre diferentes experiências singulares de pacientes – e também de profissionais, gestores e pesquisadores com os usuários – seriam uma forma de produzir resistências ao controle das instituições sobre seus corpos e suas vidas? É possível um outro jeito de encontrar o mundo e com outras pessoas na transformação da gestão da vida?

Essas foram as contribuições trazidas ao projeto de pesquisa pelo curso da disciplina “Biopolítica e Micropolítica na Produção dos Modelos Tecnoassistenciais”. Acredita-se que, depois de um ano e meio de estudos e trocas com os colegas da pós-graduação, as condições para o início dessa jornada em busca das rotas de fuga dos usuários da saúde não sujeitados, ou menos sujeitados – sem perder de vista que a cada “escapada” corresponde um prévio
aprisionamento ou nova captura  – no exercício da participação social em saúde, se fazem presentes. A proponente está ansiosa para descobrir as “rebeldias” construtoras de saúde que se revelarão ao longo desse caminho!

 
Referências

1. Foucault M. Em Defesa da Sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2005

2. Foucault M. O Poder Psiquiátrico. São Paulo: Martins Fontes, 2006
 

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Participe da consulta pública para atualização da Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde - até 11/06/17

Em 18 de abril de 2017, durante a abertura da 1ª Conferência Nacional Livre de Comunicação em Saúde, o Conselho Nacional de Saúde (CNS) lançou uma consulta à sociedade para a revisão e atualização da Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde. A proposta é que o resultado final da consulta pública seja apresentado em agosto de 2017.

A Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde, elaborada pelo Ministério da Saúde, Conselho Nacional de Saúde (CNS) e Comissão Intergestores Tripartite, foi apresentada à sociedade no dia 30 de março de 2006 por meio da Portaria GM/MS 645, convidando todos os gestores, profissionais de saúde, organizações civis, instituições e pessoas interessadas em “promover o respeito desses direitos e a assegurar seu reconhecimento efetivo e sua aplicação”.

Em sua 198ª Reunião Ordinária (junho/2009), o CNS aprovou os sete princípios da Carta de Direitos e Deveres em Saúde e em 13 de agosto de 2009 foi publicada a Portaria GM/MS 1820, que dispõe sobre os direitos e deveres dos usuários da saúde.

“A carta é um instrumento importante de diálogo com a sociedade, para conclamá-la ao exercício da cidadania e de seus direitos”, disse Ronald sobre o documento que enumera os direitos dos cidadãos em relação às ações e serviços do Sistema Único de Saúde (SUS). A última atualização da carta é de 2011. “Ocorre que há transformações importantes no Brasil que exigem o reforço, o destaque, uma atualização da carta”, destacou o presidente do CNS.

A consulta à sociedade vai de 2 de maio a 11 de junho. “Nossa ideia é que em cinco de agosto, quando no Brasil se comemora o Dia Nacional da Saúde, a gente possa apresentar a atualização da carta que tem de, necessariamente, na atual conjuntura, deixar bem claro para o povo brasileiro todos os direitos que ele tem em relação à saúde”, afirmou o presidente do CNS.

Para participar e contribuir com a consulta pública é muito simples: basta acessar o link do formulário (http://formsus.datasus.gov.br/site/formulario.php?id_aplicacao=31621) e redigir as sugestões de inclusão, exclusão ou modificação de texto em cada artigo da carta. Os campos para as sugestões estão separados por artigo, o que facilita bastante a contribuição.

Essa é uma oportunidade muito importante para exercemos o direito à participação social nos destinos da saúde no Brasil de forma colaborativa e para construirmos juntos as normas que regulam e garantem o nosso direito à saúde e suas formas de acesso.


Aberta consulta para atualização da Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde



terça-feira, 28 de março de 2017

Reflexões biopolíticas - O conhecimento e o exercício de poder sobre os corpos (ou Como produzir novas verdades a partir das nossas experiências de vida?)

Car@s Amig@s da blogosfera. 

Compartilho aqui com vocês algumas reflexões a partir da leitura do primeiro texto do livro “Em defesa da sociedade” (aula de 07 de janeiro de 1976 de Michel Foucault no Collège de France), e também as anotações feitas durante o debate com os demais colegas da disciplina de "Biopolítica e micropolítica na produção de modelos tecnoassistenciais", da pós-graduação da Faculdade de Saúde Pública da USP, sob coordenação da Profª. Laura Camargo Macruz Feuerwerker.

Na verdade, este é um convite para a continuação e ampliação do diálogo na rede, através de novos comentários e reflexões que venham se somar a esses que publico agora. 

E começo questionando: onde estão as frestas da produção crítica do conhecimento sobre saúde? Como garantir espaços de disputa de sentidos sobre saúde sem tender à "pacificação" das ideias e à regularização dos modos de vida? 

foto das anotações do debate da aula inaugural, 
imagem que será retomada ao final da disciplina


Foucault – Em defesa da Sociedade – Aula de 07.01.76

No primeiro texto/aula do livro “Em defesa da sociedade”, que reúne o conteúdo desenvolvido por Michel Foucault no Collège de France entre os meses de janeiro a março de 1976 na disciplina de “Histórias dos sistemas de pensamento”, nos deparamos já no início com uma espécie de aviso do autor: estamos aqui para pensar. Mas Foucault deixa escapar uma observação sobre a existência de uma associação entre o que é ensinado e o que se paga para ser ensinado. Seria essa uma tentativa de, mais do que ressaltar a indissociabilidade da educação do sistema político-econômico em que se insere, chamar a atenção para uma certa instrumentalidade ou intencionalidade do campo do desenvolvimento dos saberes, para tentar superar ou ampliar o pensamento para além desses limites?

Foucault parte de uma análise das modificações no modelo de suas aulas como providência necessária à realização de trocas entre professor e alunos e alunas, tendo por foco o desenvolvimento de pesquisas mais objetivas, identificando as ferramentas de produção do saber científico, entre elas a produção de narrativas como instituidoras desse saber. E também como essa produção de saberes está muito mais associada a verdades como convenções do que propriamente a questionamentos filosófico-científicos.

Em seguida Foucalut identifica as frestas de produção crítica do conhecimento dessas narrativas filosóficas a partir de algumas características: localidade/particularidade (em contraposição à aplicação geral) dos questionamentos; percepção de saberes sujeitados a eleição de versões e fontes oficiais da história com a abertura de espaço para os “saberes das pessoas”, que chamou de saber histórico das lutas. É no acoplamento entre as correntes eruditas não oficiais da filosofia e os saberes das pessoas que se localiza a genealogia do saber histórico das lutas.

A disputa então não seria em torno da verdade, mas do poder de dizer a verdade (quem e a partir de quais conhecimentos), em que teorias científicas universais se revelariam como uma espécie de autoritarismo científico, objetivando o poder como vantagem essencial ao estabelecimento de relações entre forças desiguais, relações de submissão.

Foucault passa então a analisar a pertinência do questionamento sobre a natureza do poder, propondo a correspondência das concepções liberal-jurídica e  marxista de poder a uma ideia economicista da teoria do poder. No direito o poder seria identificado como qualidade inerente à propriedade, uma operação jurídica de troca contratual, e no marxismo o poder equivaleria ao domínio dos meios de produção e da força de trabalho como forma de fazer prevalecer o domínio de classe. No primeiro se encontraria o modelo formal do poder político, e no segundo sua razão de ser histórica e o princípio de sua forma concreta e de seu funcionamento.

Embora reconheça essa funcionalidade econômica do poder, Foucault busca outra abordagem para além do que chama de economismo, questionando o poder a partir de como ele é exercido sobre a vida das pessoas, nos corpos. Foucault localiza na repressão e na disputa de forças (guerra) a essência do poder para além do economismo. O poder assim considerado seria uma forma de repressão (hipótese de Reich), de acomodação das disputas sociais (hipótese de Nietzsche).


Debate em aula:

A ciência não é neutra e é atravessada por outros interesses, essa é uma discussão atual.

Quais são mesmo as relações entre poder e economia? Foucault questiona a lógica de subordinação das relações de poder aos objetivos econômicos.

Há uma intencionalidade na prevalência de uma ideia sobre outra? Ou permanecem aquelas que emplacam? A volta a determinados filósofos não ocorre através de um comando central, mas através da dinâmica de forças da sociedade que vão operando ao longo do tempo. Quando fala dos saberes sujeitados, Foucault não aplica o termo intencionalidade, mas fala em “objetivo”.

As décadas de 60 e 70 representaram um movimento de questionamento de tudo, de vários aspectos e de vários modos. Mesmo que rechaçados num primeiro momento, os conhecimentos produzidos podem depois ser recapturados. Foucault questiona justamente como o poder opera nessa produção de conhecimento, como essa máquina de guerra vai questionar e produzir outras ordens. Tem uma certa construção de valores afirmativos sobre soberania, legitimidade, o contrato social….como é que monta esse negócio?

O poder tem a incumbência (legitimidade?) para defender a sociedade?

É necessário localizar o texto em seu contexto político de produção. Nos anos 60 e 70 o mundo estava dividido pela guerra fria, é sob essa perspectiva que os questionamentos são feitos.

O texto é um exercício interessante de problematização. Quando fazemos uma pesquisa, praticamente já sabemos a resposta. Foucault vai em busca de novos problemas pensando se os saberes a serem produzidos serão capturados ou não, como operarão. Foucault pretende produzir novas visibilidades.

O conhecimento é uma arma para destruir verdades, uma forma de resistência, e que está intimamente relacionado ao poder. “A política é a guerra continuada por outros meios”.

Poder não é só repressão, mas produção. São diferentes linhas de força operando nessa produção ativa, há invenções também, o poder produz possibilidades e por isso se sustenta. Há efeitos, apropriações e produções, não há uma ideologia que cega as pessoas.

Existe um certo regime de verdade, onde estão inseridos profissionais de saúde e usuários.

A vida em produção fabrica corpos, enquanto a medicina estuda regularidades. Pensar em como a vida está se produzindo para se manter, conforme as ideias de Foucault nesse texto, talvez seja mais importante do que estudar e buscar as regularidades.

O poder do discurso também atua de maneira muito forte, mas não é apenas o saber científico que orienta as práticas. A explicação geral que reduz tudo é insuficiente para abrir o combate.

Um jeito interessante de interrogar é pensar a partir dos efeitos. A construção de políticas públicas de saúde com a participação da comunidade é uma diretriz do SUS criada a partir da experiência das lutas da reforma sanitária. Na prática, há muitas dificuldades nessa participação social. Mas, ao invés de responsabilizar gestores ou usuários por não colocar em prática de forma adequada o instituto, seria mais interessante questionarmos os pressupostos do controle social pensando em seus efeitos. O que isso produz? Faz sentido pensar numa participação apenas nos grandes espaços mas que não participa da produção quotidiana da vida?

Os espaços institucionais acomodam a “oficialidade”, mas não abrigam as disputas existentes. Como escapar do institucional?

Os usuários são convidados a participar de reuniões dos profissionais e dos gestores, mas não são considerados como pessoas com uma vida que se desenvolve em outros espaços que não sejam os serviços de saúde, produzindo outras possibilidades. Considerar a vida que acontece para fora dos serviços de saúde é pensar outras formas de produção de saúde e de vida.

Saúde se produz como valor. Questionar a saúde não é deixar de se importar com a vida das pessoas, é pensar em outras possibilidades de produção de saúde.

Esse texto é um convite ao desconforto, ao questionamento constante, à percepção das modificações em constante emergência.

Foucault não acredita em relações que não envolvam a disputa de forças e o poder, o poder atravessa todas as relações sociais.

Como produzimos novas verdades a partir das nossas experiências de vida?

quinta-feira, 9 de março de 2017

Precisamos dos insumos e medicamentos de diabetes, precisamos do apoio dos Conselhos de Saúde!

A Lei nº 8.142/90, uma das Leis Orgânicas da Saúde, regulamentou a forma representativa de participação da comunidade (uma das diretrizes constitucionais do SUS) no âmbito da saúde no Brasil, criando os Conselhos de Saúde, órgãos representativos do controle social.

Os Conselhos de Saúde são compostos por representantes do governo, prestadores de serviço, profissionais de saúde e usuários do SUS, e atuam na formulação de estratégias e no controle da execução das políticas de saúde em cada esfera de governo. Portanto, Conselho Nacional de Saúde (CNS) formula e controla a execução da Política Nacional de Saúde; os Conselhos Estaduais de Saúde formulam e controlam a execução da política regional de saúde em cada Estado; e os Conselhos Municipais de Saúde formulam e controlam a execução da política regional de saúde em cada Município.

Como órgãos promotores do diálogo entre a administração pública da saúde (Ministério da Saúde e Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde) e a sociedade (todos nós cidadãos), podemos buscar os Conselhos de Saúde para comunicar e pedir o apoio para a solução de problemas, necessidades e demandas, e também para nos representar na cobrança de providências das gestões executivas para a garantia do direito de acesso universal, integral e equânime à saúde, em que se insere a assistência farmacêutica do SUS.

(Saiba mais sobre os Conselhos de Saúde lendo a cartilha do CNS "Conselhos de saúde: a responsabilidade do controle social democrático do SUS", acessível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/conselhos_saude_responsabilidade_controle_2edicao.pdf)




Desde o início deste ano de 2017, pessoas com diabetes de São Paulo vem enfrentando a falta crônica dos materiais integrantes do Programa de Automonitoramento Glicêmico (AMG ou kit diabetes). Em quase todas as Unidades Básicas de Saúde do Município faltam fitas medidoras, lancetas, seringas (estas já desde meados de 2016), lixo para pérfuro-cortantes e os próprios glicosímetros. Em muitas unidades também faltam insulina e metformina, além de medicamentos para tratamento de doenças associadas ao diabetes tipo 2, como hipertensão.

A situação é a mesma em nível estadual. Na Unidade Dispensadora Tenente Pena (UDTP), da Secretaria do Estado da Saúde, responsável pelo fornecimento de medicamentos e insumos excepcionais em função de ordens administrativas e judiciais, os usuários não recebem qualquer dos materiais de bomba de infusão de insulina desde fevereiro.


Imagem publicada no facebook por Aureloyse Maximo para denunciar a falta de insumos na UDTP para tratamento de seu filho com diabetes tipo 1


Assim, é importante que nós usuários comuniquemos o desabastecimento nas UBS's ao Conselho Municipal de Saúde de São Paulo e busquemos o apoio dos Conselheiros para cobrar providências do Secretário Municipal de Saúde, Wilson Pollara, para restabelecimento do fornecimento do kit diabetes e demais medicamentos e insumos imprescindíveis ao nosso controle glicêmico.

Da mesma forma, devemos comunicar o desabastecimento da UDTP, e de demais Departamentos Regionais de Saúde (DSR's) da Secretaria Estadual de Saúde no interior do Estado, ao Conselho Estadual de Saúde de São Paulo, e pedir o apoio dos Conselheiros na cobrança de providências do Secretário do Estado da Saúde, David Uip, para restabelecimento do fornecimento dos medicamentos e insumos imprescindíveis à nossa sobrevivência digna.

Para quem não sabe exatamente o que escrever aos Conselheiros, sugerimos as seguintes mensagens:


Ao Conselho Municipal de Saúde de SP - email: cmssp@prefeitura.sp.gov.br

Assunto: Desabastecimento de medicamentos e insumos de diabetes - solicitação de ajuda do CMS

Mensagem:

Prezadas amigas e prezados amigos do Conselho Municipal de Saúde de São Paulo.

Há ___ anos sou portador(a) de diabetes tipo ___ e há ____ anos estou cadastrada no Programa de Automonitoramento Glicêmico (AMG) do Município de São Paulo, através do qual recebo (descrever os insumos recebidos entre fitas, lancetas, insulinas NPH e Regular, seringas, e lixo para materiais pérfuro-cortantes), e ainda retiro os medicamentos (descrever nome dos medicamentos) na farmácia da UBS do bairro de _______. Todavia, desde o mês de _____ (incluir mês e ano), não recebo (citar insumos e medicamentos faltantes), o que vem prejudicando o meu controle glicêmico e a continuidade do meu tratamento de saúde, além de insegurança quanto às consequências e riscos desse descontrole, com efeitos no desenvolvimento do meu (trabalho, estudo ou ambos) e da minha vida pessoal. Conversando com outros usuários do SUS da cidade de São Paulo, e lendo notícias sobre o assunto, percebi que esta não é uma situação isolada na minha UBS, mas um problema alastrado por toda a cidade de São Paulo.

Por este motivo, gostaria de solicitar o apoio dos integrantes deste Conselho na solução do problema, incluindo o desabastecimento de medicamentos da assistência farmacêutica e de insumos do programa AMG para tratamento de diabetes na pauta da próxima reunião do pleno, e de demais comissões pertinentes, para que se discutam medidas para exigir do Secretário Municipal de Saúde de São Paulo explicações sobre os motivos desse desabastecimento tão prolongado, e ainda cobrar uma solução imediata para o restabelecimento do fornecimento dos insumos e medicamentos imprescindíveis à saúde e à vida das pessoas com diabetes.

Desde já, agradeço o apoio deste Conselho na defesa do direito à saúde das pessoas com diabetes, e também em defesa do SUS!



Ao Conselho Estadual de Saúde de SP - email: ces@saude.sp.gov.br

Assunto: Desabastecimento de medicamentos e insumos de diabetes - solicitação de ajuda do CES

Mensagem:

Prezadas amigas e prezados amigos do Conselho Estadual de Saúde de São Paulo.

Há ___ anos sou portador(a) de diabetes tipo ___ e há ____ anos recebo (descrever os insumos e medicamentos recebidos) na(o) (Unidade Dispensadora Tenente Pena ou Departamento Regional de Saúde de ___) da Secretaria do Estado da Saúde de São Paulo, por decisão em processo (judicial ou administrativo) de dispensação excepcional de insumos e medicamentos. Todavia, desde o mês de _____ (incluir mês e ano), não recebo (citar insumos e medicamentos faltantes), o que vem prejudicando o meu controle glicêmico e a continuidade do meu tratamento de saúde, além de insegurança quanto às consequências e riscos desse descontrole, com efeitos no desenvolvimento do meu (trabalho, estudo ou ambos) e da minha vida pessoal. Conversando com outros usuários que retiram seus insumos e medicamentos para tratamento de diabetes na mesma unidade, e lendo notícias sobre o assunto, percebi que esta é uma situação generalizada, que vem afetando muitos outros portadores de diabetes.

Por este motivo, gostaria de solicitar o apoio dos integrantes deste Conselho na solução do problema, incluindo o desabastecimento crônico e constante de medicamentos e de insumos para tratamento de diabetes na (UDTP ou DRS) na pauta da próxima reunião do pleno, e de demais comissões pertinentes, para que se discutam medidas para exigir do Secretário do Estado de Saúde de São Paulo explicações sobre os motivos desse desabastecimento tão prolongado, e ainda cobrar uma solução imediata para o restabelecimento do fornecimento dos insumos e medicamentos imprescindíveis à saúde e à vida das pessoas com diabetes.

Desde já, agradeço o apoio deste Conselho na defesa do direito à saúde das pessoas com diabetes, e também em defesa do SUS!


Imagem: Carlos A. Rotea Jr.


Se todos nós que estamos sem nossos insumos e medicamentos nos mobilizarmos e enviarmos mensagens aos Conselhos de Saúde, mostraremos que a situação é grave e atinge muitas pessoas. E através da representação dos Conselheiros, teremos nosso direito à saúde defendido com a cobrança de providências das gestões municipal e estadual de saúde de São Paulo para regularização da assistência farmacêutica do SUS a todas as pessoas com diabetes, no Município e no Estado. 

E ainda estaremos participando da gestão democrática da saúde, através do exercício do controle social, e contribuindo para o funcionamento do sistema público de saúde.

terça-feira, 7 de março de 2017

Em 8 de março as mulheres irão às ruas para exigir direitos iguais


Por Mônica Nunes, no Conexão Planeta

Quando o momento exige, não há melhor forma para se fazer ouvir do que sair às ruas em grupo e protestar. E é isso que milhares de mulheres pelo mundo farão no Dia Internacional da Mulher, que – apesar de ter sido deturpada ao longo da história pelo comércio –, é uma data muito propícia para esta manifestação. A ideia é, inclusive, dar um novo tom a esse dia, resgatando sua intenção original.

Para isso, é imprescindível envolver não só as mulheres, mas homens, adolescentes, famílias, transgêneros e todos que reconheçam a legitimidade da mobilização e também queiram lutar por direitos.

Mas claro que muita gente não vai poder participar, ainda mais num momento de desemprego e de grande pressão nas grandes corporações. Por isso, o movimento indica OUTRAS MANEIRAS DE SE MANIFESTAR E ADERIR À CAUSA: parar uma hora no trabalho e otimizá-lo com conversas sobre as desigualdades, usar um detalhe ou uma peça de roupa lilás – cor símbolo da iniciativa – e boicotar as tarefas domésticas.

Quem puxou essa grande manifestação mundial – que está sendo chamada informalmente de greve internacional feminina já que envolverá mais de 30 países – foram dois dos maiores movimentos feministas do mundo: Ni Una Menos, que começou na Argentina e se espalhou pela América Latina, e a Marcha das Mulheres pelo Mundo.

A ideia é transformar 8 de março em um marco para novas relações com as mulheres nas sociedades, protestando contra as desigualdades de gênero, o machismo, o feminicídio, a exploração no trabalho e adesumanização feminina. Como? Convocando todas as mulheres a abandonarem seus postos de trabalhos (seja onde for!) e sair às ruas.

Entre os países que já confirmaram sua adesão, por intermédio de grupos feministas, estão Austrália, Bolívia,Brasil, Chile, Costa Rica, República Checa, Equador, Inglaterra, França, Alemanha, Guatemala, Honduras, Islândia, Irlanda do Norte, Irlanda, Israel, Itália, México, Nicarágua, Peru, Polônia, Rússia, El Salvador, Escócia, Coreia do Sul, Suécia, Togo, Turquia, Uruguai e EUA.




No Brasil

Por aqui, a violência contra a mulher e a reforma da Previdência proposta pelo governo Temer são a principais bandeiras desta mobilização. No caso da aposentadoria, a reivindicação se refere a equiparação de idade entre homens e mulheres. Com um detalhe: em geral, as mulheres trabalham cerca de cinco horas semanais em tarefas domésticas todos os dias, além da jornada remunerada.

Em São Paulo, estão sendo organizados dois grandes encontros – na Avenida Paulista, em frente ao MASP, e na Praça da Sé -, mas há outras mobilizações menores programadas pela cidade. Tudo para facilitar a participação. A página 8M – Paralisação Internacional das Mulheres em São Paulo, no Facebook, está sempre atualizada. Tem também o convite para o evento que mantém links relacionados na coluna da direita com os demais eventos do dia.




Como essa história começou

Essa greve começou a ser planejada depois de dois protestos realizados em 2016: um em 3 de outubro (que ficou conhecido como segunda negra), na Polônia, contra a lei do aborto, e outro, no mesmo mês, no dia 19 (vulgo quarta feira negra) na Argentina, que uniu milhares de mulheres contra os assassinatos ocorridos naquele ano – foram cerca de 200!

Mas a inspiração para este tipo de protesto – que intervém diretamente na produção – veio, na verdade, da Islândia. Em 24 de outubro de 1975, 90% das islandesas abandonaram o trabalho e foram às ruas para lutar por igualdade de direitos. A manifestação ficou conhecida como Dia Livre das Mulheres e conseguiu dar visibilidade para dois fatos importantes: a diferença vergonhosa de salários entre homens e mulheres e o trabalho doméstico não remunerado.



Carta e nova imagem

Na semana passada, a americana Angela Davis e ativistas das universidades assinaram carta publicada no jornal The Guardian – Mulheres dos Estados Unidos: estamos em greve. Junte-se a nós para que Trump veja o nosso poder – na qual convidam as americanas para aderir à greve geral “contra a violência masculina e em defesa dos direitos reprodutivos”. Sua intenção é mobilizar não só mulheres, mas também transgêneros, para construir uma nova agenda: “antirracista, anti-imperialista, anti-neoliberal e anti-heteronormativa”.

Entre elas, há um enorme sentimento de ojeriza ao marketing do falso “empoderamento” e à imagem do feminismo corporativo, que apenas incentivaram políticas conservadoras e as regras do livre mercado para as mulheres, mesmo em políticas que pareciam voltadas para defender seus direitos.

E isso ficou ainda mais claro com o barulho feito pela Marcha das Mulheres em 21 de janeiro, encorajando-as a buscar uma nova fase para a luta pela igualdade de gênero. As americanas estão chamando essa nova onda de mobilizações planetárias de Feminismo do 99% , enfatizando os direitos sociais. Não há dúvida de que a mudança para um novo e mais justo futuro só poderá ser feita por mulheres corajosas – e homens e outros gêneros idem. Mulheres de todo mundo vão abandonar seus postos de trabalho no próximo dia 8 de março exatamente por isso.

No Brasil, bem que poderíamos aproveitar a data para fazer um protesto ainda mais amplo em todos os sentidos, dada à urgência de combater nossa realidade política: um protesto com mulheres, homens, jovens, crianças, aposentados, trabalhadores, desempregados… pelas mulheres, claro! Mas também pela volta da democracia, dos direitos humanos, da justiça, da humanidade. E por eleições diretas. Aqui, todos os direitos estão sendo perdidos.





CONVOCAÇÃO PARA A GREVE INTERNACIONAL DE MULHERES NO BRASIL - 8 DE MARÇO, publicada no site do 8M Brasil

Neste 08 de março, a terra treme. As mulheres do mundo nos unimos e organizamos uma medida de força e um grito comum: Greve Internacional de Mulheres. 

Nós paramos. Fazemos greve, nos organizamos e nos encontramos entre nós. Colocamos em prática o mundo no qual queremos viver. 



Paramos para denunciar: 

Que o capital explora nossas economias informais, precárias e intermitentes. 

Que os Estados nacionais e o mercado nos exploram quando nos endividam. 

Que os Estados criminalizam nossos movimentos migratórios. 

Que recebemos menos que os homens e que a diferença salarial chega, em média, a 26% na América Latina. 

Que não é reconhecido que as tarefas domésticas e de cuidado são trabalhos não remunerados e adicionam três horas a nossas jornadas laborais. 

Que estas violências econômicas aumentam nossa vulnerabilidade diante da violência machista, cujo extremo mais brutal são os feminicídios. 

Paramos para reivindicar o direito ao aborto livre e para que não se obrigue nenhuma menina a enfrentar a maternidade. 

Paramos para visibilizar o fato de que, enquanto tarefas de cuidado não sejam uma responsabilidade de toda a sociedade, nos vemos obrigadas a reproduzir a exploração classista e colonial entre mulheres. Para ir ao trabalho, dependemos de outras mulheres. Para migrar, dependemos de outras mulheres. 

Paramos para valorizar o trabalho invisível que fazemos, que constrói redes de apoio e estratégias vitais em contextos difíceis e de crise. 


Paramos porque estão ausentes as vítimas de feminicídio, vozes apagadas violentamente ao ritmo assustador de treze (13) por dia só no Brasil. 

Estão ausentes lésbicas e travestis assassinadas por crimes de ódio. 

Estão ausentes as presas políticas, as perseguidas e as assassinadas em nosso território latino-americano para defender a terra e seus recursos. 

Estão ausentes as mulheres presas devido a delitos menores que criminalizam as formas de sobrevivência, enquanto os crimes corporativos e o tráfico de drogas permanecem impunes porque beneficiam o capital. 

Estão ausentes as mortas e as presas por abortos inseguros. 

Diante de lares que se tornam um verdadeiro inferno, nós nos organizamos para nos defendermos e cuidarmos umas das outras. 

Diante do crime machista e da pedagogia da crueldade, diante da tentativa dos meios de comunicação de nos vitimizar e de nos aterrorizar, fazemos do luto individual um consolo coletivo e da raiva, uma luta compartilhada. Contra a crueldade, mais feminismo. 
​ 


Nós usamos a estratégia da greve porque nossas demandas são urgentes. Fazemos da greve de mulheres uma medida ampla e atualizada, capaz de abrigar empregadas e desempregadas, a assalariadas e as que cobram subsídios, a autônomas e estudantes, porque todas somos trabalhadoras. Nós paramos. 

Nós nos organizamos contra o confinamento doméstico, contra a maternidade compulsória e contra a competição entre as mulheres, práticas impulsionadas pelo mercado e pelo modelo de família patriarcal. 

Nós nos organizamos em todas as parte: nas casas, nas ruas, no trabalho, nas escolas, nas feiras, nos bairros. A força do nosso movimento está nos laços que criamos entre nós. 

Nós nos organizamos para mudar tudo isso. 


Nós tecemos um novo internacionalismo. A partir das situações concretas em que estamos, nós interpretamos a conjuntura. 

Vemos que, diante do avanço neo-conservador na região e no mundo, o movimento das mulheres emerge como potência de alternativa. 

Que a nova "caça às bruxas", que agora persegue o que nomeia como "ideologia de gênero", tenta justamente combater e neutralizar nossa força e quebrar nossa vontade. 

Diante das múltiplas desapropriações, das expropriações e das guerras contemporâneas que têm a terra e os corpos das mulheres como territórios favoritos de conquista, nós nos incorporamos política e espiritualmente. 

​ 

Porque #VivasELivresNosQueremos, nos arriscamos em alianças incomuns. 

Porque nos apropriamos do tempo e construímos juntas a disponibilidade. Fazemos da nossa reunião um alívio e uma conversa entre aliadas; das assembleias, manifestações; das manifestações, uma festa; e da festa, um futuro em comum. 

Porque #EstamosJuntas, este 8 de março é o primeiro dia de nossa nova vida. 

Porque #ODesejoNosMove, 2017 é o momento da nossa revolução. 







quarta-feira, 1 de março de 2017

Debate “SUS em desmonte?” discute momento atual da saúde pública

O Sistema Único de Saúde (SUS) é um dos principais alvos das reformas propostas pelo presidente não eleito Michel Temer. As duas principais frentes de mudanças são a criação e difusão do Plano de Saúde Acessível e a redução de investimentos no SUS que, segundo especialistas, pode prejudicar o sistema pelas próximas duas décadas.

Discutir esse cenário atual é o principal objetivo do debate realizado pelo portal Saúde Popular e pela Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares, no próximo dia 2 de março, às 19 horas, ao vivo pelo Facebook (https://www.facebook.com/saudepopular.org/).

Farão parte da discussão o economista e consultor da comissão de financiamento e orçamento do Conselho Nacional de Saúde (Cofin-CNS), Francisco Funcia, e a professora Laura Feuerwerker, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

A PEC 55, que congela por 20 anos as despesas com Saúde, Educação e Previdência Social, também será tema do debate. Funcia considera essa proposta “o maior ataque ao SUS e à Constituição Federal dos últimos 30 anos”.

Laura trará suas contribuições como pesquisadora e médica. Sobre o SUS, ela acredita que há problemas reais no sistema que em grande medida vem sendo construído com menos recursos do que necessita. “Em países que têm modelo semelhante ao programa Saúde da Família, por exemplo, há uma média de uma equipe para cada 1.500 pessoas; aqui é um para cada 1.500, 2 mil famílias (três a quatro vezes mais gente)”. diz Laura.
Três reais por dia por pessoa é o valor que sustenta os serviços oferecidos pelo SUS somando recursos da União, estados e municípios. Esse valor seria suficiente? Como ficaria caso as reformas sugeridas se tornem realidades? São essas e outras questões que os entrevistados irão responder.

Participe e envie dúvidas na página do evento.






Francisco Funcia
Economista, consultor da Comissão de Financiamento e Orçamento do Conselho Nacional de Saúde (CNS). Diretor da ABrES – Associação Brasileira de Economia da Saúde. Possui graduação em Ciências Econômicas pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1981) e mestrado em Economia Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1998). Atualmente é consultor da Vignoli e Funcia Consultores Ltda. e da FGV Projetos e professor do Instituto Mauá de Tecnologia e da Universidade Municipal de São Caetano do Sul. Foi gestor dos cursos de Ciências Econômicas e Ciências Contábeis e Diretor da Área de Ciências Contábeis e Ciências Econômicas da Universidade Municipal de São Caetano do Sul. Tem experiência como gestor público e como diretor e gestor de curso superior. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Economia e Administração Pública, atuando principalmente nos seguintes temas: fiscal, finanças públicas, emprego, desenvolvimento, financiamento do Sistema Único de Saúde/SUS, conjuntura e política econômica.


Laura Feuerwerker
Possui graduação em Medicina pela Universidade de São Paulo (1983), mestrado em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (1997), doutorado em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (2002) e livre-docência em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (2012). Atualmente é professora associada da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo do Departamento de Prática de Saúde Pública, Linha de Pesquisa Política e Gestão. É colaboradora da Linha de Micropolítica do Trabalho e o Cuidado em Saúde da Pós-Graduação de Clínica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. No campo da produção do conhecimento, atua principalmente nos seguintes temas: políticas públicas na área da gestão, da produção do cuidado e do trabalho em saúde, educação de profissionais de saúde. Na extensão, desenvolve atividades de apoio à educação permanente e ao desenvolvimento da gestão junto a secretarias municipais de saúde e ao ministério da saúde.

Leia artigo de Laura Feuerwerker "Desmonte do SUS: desafios locais e a autonomia da gestão": https://saude-popular.org/2017/02/artigodesmonte-do-sus-desafios-locais-e-a-autonomia-da-gestao/